Haitink, o devoto de Mahler

Regente que comandou a Filarmônica de Viena na sexta fala de sua carreira e preferências

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Sentado no café de um hotel no centro de Salzburg, com vista para o Rio Salzach, Bernard Haitink sorri com a lembrança. "Estive aqui pela primeira vez em 1947, tinha acabado de completar 18 anos. Estava animado para ver de perto um maestro de quem se falava muito, Wilhelm Furtwängler. Eu o vi regendo Fidelio, outras óperas, e... nada. Não provocou impressão nenhuma em mim. Até que durante um concerto, a 8.ª Sinfonia de Bruckner, algo aconteceu e uma eletricidade tomou conta do teatro de maneira muito forte. A apresentação era de manhã e lembro que passei toda a tarde caminhando na margem desse rio, tentando entender o que eu acabara de testemunhar. É algo de que não me esqueço até hoje."

Aos 81 anos, foi Haitink quem comandou a Filarmônica de Viena no concerto matinal de sexta-feira. No programa, Bruckner, a 5.ª Sinfonia. "Não há receita para interpretar essa música", diz. "Eu a toquei várias vezes ao longo da vida e ela entra no seu corpo, na sua mente. Quanto mais se faz Bruckner, mais se compreende sua linguagem especial, se desenvolve uma relação com ela. Você só deve interpretá-la quando acredita."

Bruckner foi um cristão devoto. Em que medida uma realidade como essa influencia sua interpretação? "Não estou certo. Para mim, a música vem antes. Eu definitivamente não sou católico. Mas sua religiosidade diz algo para você e é importante compreendê-la, se sentir tocado de alguma forma. Não é preciso acreditar no que ele acreditava para compreender sua relação com o que é humano. Veja, nós, intérpretes, somos pessoas de segunda categoria (risos). Temos contato com essa genialidade que é do compositor, devemos entender esse milagre que foi a criação de uma obra. Se deixa de ser um milagre, então é hora de parar."

Haitink gravou com a Concertgebouw de Amsterdã o ciclo completo das nove sinfonias de Bruckner nos anos 80. Foi a primeira orquestra que assumiu, em 1961, e lá ficou até 1988, época em que se tornou diretor da Royal Opera House Covent Garden, de Londres, posto que deixou em 2002. Quatro anos depois, surpreendeu ao recusar convite para ser regente titular da Sinfônica de Chicago. "Estava muito velho para assinar um contrato longo", explica. No fim, a orquestra acabou convidando Riccardo Muti para o posto e Haitink aceitou ficar no cargo até o começo deste ano, enquanto o italiano não chegasse. "Todo maestro tem uma data de validade à frente de uma orquestra, é bobagem pensar o contrário."

Além de Bruckner, Haitink se dedicou ao longo de toda a carreira a Gustav Mahler. Nos anos 60, foi um dos responsáveis pelo resgate de sua obra. "Nos anos 20, 30, músicos como Bruno Walter abriram muito espaço para suas peças, mas a guerra apagou o trabalho que eles haviam feito. Nos anos 60, é preciso lembrar, a indústria fonográfica vivia o começo de uma efervescência - e certo dia um representante da Phillips chega para nós e diz: queremos gravar um ciclo completo das dez sinfonias de Mahler. Ficaram todos animados, até que eu disse: tudo bem, eu posso fazer, mas ainda estou engatinhando nessa música e preciso de dez anos, um para cada sinfonia. E depois gravamos. Não sei por que, mas eles aceitaram", ri o maestro.

Lógica. "Hoje ele é o novo Beethoven", continua. "Todo maestro quer ter seu ciclo completo. Mahler dizia que sua hora chegaria. Mas não sei o que ele acharia disso. Até porque os maestros têm uma tendência a tocá-lo cada vez mais alto, tentando encontrar nas peças lógicas que elas não possuem. Vejo isso e me dou conta de que é hora de ficar um pouco quieto no meu canto."

Haitink conta que, por conta das homenagens, em 2010 e 2011, aos 150 anos de nascimento e ao centenário de morte do compositor, recebeu diversos convites para realizar ciclos completos da obra mahleriana. "Mas disse não a todos. Em Chicago, eles queriam uma integral para marcar minha despedida, mas preferi fazer Beethoven. Mahler é um universo rico, mas Beethoven é o ser humano nu, sua música é fantástica na estrutura, na forma e na emoção. Só aceitei, em Amsterdã, fazer a 9.ª Sinfonia, em 2011, porque é peça única, uma despedida especial. E, depois de tantos anos, e com a idade que tenho, me sinto preparado para voltar a ela."

Nos últimos anos, Haitink tem gravado bastante com a Sinfônica de Chicago e com a Sinfônica de Londres, da qual é regente emérito. Detalhe: as duas orquestras criaram selos próprios. "É o único caminho possível neste momento em que a indústria parece ter desistido de solucionar sua crise", diz. "E acho um formato interessante, dá liberdade maior à orquestra e seu maestro. Com o selo de Chicago, vendemos bem, mas nada excepcional. São muitas as opções, nada fica. A vida útil de uma gravação é muito pequena. Hoje tudo é muito rápido, ou você vende tudo logo ou, pronto, é esquecido. O artista deve entender que não conseguirá, com um disco, alcançar a eternidade. Rapidez é a palavra do momento, mais do que nunca. Veja Salzburg. Houve uma época em que você encontrava todos os maestros e solistas do festival nas ruas, fazendo compras. Hoje, as pessoas tocam e vão embora correndo."

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