Guga Melgar/Divulgação
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Hair e os ecos de um grito que não quer calar

Clássico sobre os tumultuados anos 60 ganha remontagem e revela uma assustadora atualidade

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2010 | 06h00

Jovens mortos em guerras estúpidas, preconceito contra homossexuais, crise geracional entre pais e filhos - o mundo parece não ter dado um passo sequer desde que o musical Hair estreou em 1967 no circuito alternativo dos Estados Unidos, onde, depois de conquistar a Broadway, logo foi alçado à condição de clássico por tratar daqueles assuntos sob um olhar inovador e original. Mas, se a realidade manteve intactos certos conflitos, Hair renovou o frescor da juventude em lutar por causas justas. É o que se percebe na nova montagem brasileira que estreia nesta setxa-feira, 5, no Teatro Oi Casa Grande, no Rio.

Assinada por uma dupla tarimbada (Claudio Botelho e Charles Möeller), a produção é esmerada - dos figurinos à atlética coreografia, da versão das letras à interpretação, Hair resgata um sentimento duradouro. "Ainda vivemos em guerra e os conflitos são muito parecidos e tão assustadores e sem sentido como o do Vietnã. Da mesma forma que ainda somos cheios de tabus e vivemos na intolerância. O grito de Hair continua ecoando", justifica Charles Möeller.

O musical é ambientado em 1968 e acompanha os passos de John Berger (Igor Rickli), hippie que comanda uma tribo de moças e rapazes de Nova York. O grupo logo é reforçado por Claude (Hugo Bonemer), rapaz que vive um dilema: oprimido pelos pais, que o querem alistado no Exército para a Guerra do Vietnã, ele também é assediado pelos hippies, que o incentivam a se soltar das amarras sociais.

Botelho e Möeller assistiram ao revival de Hair em 2009 em Nova York e, emocionados, decidiram comandar uma versão brasileira. "Na remontagem, a diretora Diane Paulus trouxe personagens mais modernizados, sem o ranço experimentalista que marcou o original", conta Botelho que, depois disputar com a Time For Fun (que monta musicais no Teatro Abril), conseguiu os direitos, auxiliado pela Aventura Entretenimento, empresa que vem patrocinando os recentes espetáculos da dupla.

"São muitas as referências da peça, especialmente paralelos com Shakespeare e o cristianismo", observa Möeller. "É uma espécie de Novo Testamento, pois a peça começa com o Anjo da Anunciação cantando Aquarius, que prega uma nova era e a vinda do novo Cristo. Em seguida, entra em cena John Berger, que tem as mesmas iniciais de João Batista e que fundamenta uma liturgia inédita - por meio do LSD, ele alcança uma nova fronteira, uma referência ao que Paul McCartney disse nos anos 1960, sobre encontrar Deus por meio da droga."

De fato, Hair é uma parábola, especificamente sobre a geração combatente daquela década. Até estrear no circuito off Broadway em 1967, o musical precisou de três anos de gestação promovida por Gerome Ragni e James Rado, que também eram atores. Durante o período, eles absorveram inúmeras referências sobre as rápidas transformações que o mundo vivia. No fim de 1966, Galt MacDermot uniu-se à dupla e, em apenas três meses, compôs toda a música do espetáculo, cuja sonoridade também remetia ao inconsciente coletivo jovem da época - pela primeira vez, um musical unia rock’n’roll com a música negra (ainda pouco conhecida fora dos guetos), mantras orientais, letras psicodélicas e influências de música tribal.

O resultado, riquíssimo, exigiu um trabalho delicado de Claudio Botelho na versão das letras. "Logo percebi que a sonoridade era mais importante que tradução mais fiel", comenta ele que, se poderá ser criticado por alguns puristas, por outro lado vai agradar à maioria pelo perfeito encaixe das palavras à melodia. "Afinal, a letra é psicodélica e muito sensível."

Dividido em dois atos, Hair mostra momentos opostos vividos pelos personagens. No primeiro, é exaltada a arrogância da juventude, o sol brilha, enquanto no segundo, com a chegada do inverno, aqueles mesmos hippies querem voltar para a casa dos pais, como bichos assustados. "É o inverno da alma. Tudo caminha para a morte", comenta Möeller. "E os autores foram implacáveis, pois Claude não escapa da guerra nem da morte."

Para o diretor, aliás, Claude e Berger são como duas faces da mesma moeda - enquanto o primeiro se revela frágil, cheio de dúvidas e transborda sensibilidade, o outro tem um lado selvagem e uma sexualidade aparente. "É como se fosse o id e o superego, o corpo e a alma, o racional e o irracional conduzindo essa tribo."

Möeller cuidou também da direção de movimentos, ou seja, a postura dos atores que não contrasta com a coreografia. Um dos trunfos da montagem brasileira de Hair, os extensos números de dança mobilizam todo o elenco de 30 atores e dialogam com a proposta de 'não-coreografia' proposto no espetáculo original. Ou seja, são gestos atléticos cuidadosamente criados pelo coreógrafo Alonso Barros.

Quando decidiram montar a sua versão, Botelho e Möeller também estavam firmes em respeitar as transgressões originais. Assim, uma cena de nudez coletiva assim como as ‘viagens’ promovidas pelo consumo de drogas foram mantidas, mesmo que vozes temerosas tentassem amenizar. "Uma das principais metas de Hair é combater tabus e intolerâncias", comenta Botelho. "Daí a mensagem da canção final, Let the Sunshine In: se não deixar o sol entrar, o inverno vai persistir e preservar a geleira da alma."

A canção, aliás, provoca uma verdadeira emoção na plateia, convidada a subir ao palco e cantar com os atores. "Tudo se transforma em uma imensa liturgia, com as pessoas se esquecendo de seus problemas", diz Möeller.

HAIR

Teatro Oi Casa Grande. Av. Afrânio de Mello Franco, 290, Leblon, (21) 2511-0800.5ª e 6ª, às 21h; sáb., às 18h e 21h30; dom., às 19h. R$ 40/R$ 150. Até 19/12.

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