Hacker é protagonista de "Pirata na Linha"

Um garotão adolescente, arrependido de todas as estripulias que aprontou diante do computador, como um autêntico hacker, avisa a candidata a namorada que deixou de ser pirata, já que a rede já está cheia de guardas do rei. "Então, agora você quer ser guarda?", desconfia a moça. "Não, quero ser o rei", responde de pronto o teen descolado. E explica: "Esse país é um grande circo; como eu sou mesmo esse palhaço que você conhece, não acha que tenho muitas chances de me dar bem?"A cena - que faz parte da peça Pirata na Linha, em cartaz com entrada franca no Teatro Popular do Sesi - exemplifica muito bem como é possível retratar no palco, com inteligência, o universo adolescente. Sem facilidades, sem concessões.Aimar Labaki é o autor do texto. Faz sua estréia na dramaturgia para jovens e acerta em cheio. Mandou bem - para usar a linguagem de seus retratados. Autores que se dirigem aos jovens costumam errar a mão com estereótipos e clichês, preocupados em contemplar todos os temas tidos e havidos como de interesse dessa complicada faixa etária. Ao mesmo tempo, têm medo de assumir certos detalhes fundamentais, como, por exemplo, o uso de palavrões. Labaki não tem falsos moralismos: seus personagens lançam mão de xingamentos quando a cena assim o exige - e por que não?Labaki, antes de mais nada, conta uma história - e uma história em que se dá até o direito de ser inverossímil e fantasioso demais. Afinal, não é assim que se produz boa ficção? Fica evidente, vendo a peça, que ele não escolheu primeiro os temas (como sexo, drogas e Internet) e, a partir daí, inventou sua peça. Ao contrário, tinha a história e fez dela um espetáculo atraente para quem se interessa por sexo, drogas e Internet.É um texto inteligente para um público inteligente. A parte inverossímil da trama é a cena dos dois amigos adolescentes enganando uma gerente de banco e alterando o saldo de uma conta com um desembaraço improvável para a pouca idade dos protagonistas. Mas é, também, uma das cenas mais engraçadas, contando com a participação em vídeo da atriz Flávia Garrafa. É esse casamento do bem-humorado com o pouco provável que dá sabor à peça.Na direção, Débora Dubois consegue a mesma competência que já exibira em Cuidado: "Garoto Apaixonado". É impressionante notar, por exemplo, como ela faz bom uso da trilha sonora em suas peças, aqui co-assinada por Fabiano Augusto, o ator principal de "Pirata na Linha". Afinal, se música faz parte da vida dos jovens, nada como saber tirar proveito dramatúrgico da trilha. Em nenhum momento, a direção atrapalha a narrativa ou prejudica os diálogos, mesmo misturando no palco tantos recursos de linguagem cenográfica: sombras na parede para retratar os personagens adultos, painéis vazados que sobem e descem, o telão, os teclados de computador e o monitor de vídeo.No elenco, Fabiano Augusto, como Dinho, o tal que se arrepende da vida ilegal de hacker, dá um show. Conhecido da TV, por ser um dos apresentadores da Turma da Cultura, ele está muito bem dirigido e consegue a atitude cênica adequada para um adolescente. Lavínia Lorenzon, como a namorada Lena, passeia com delicadeza pelos limites entre a garota estressada e a mocinha apaixonada.Pirata na Linha. Direção de Débora Dubois. Duração de 60 minutos. Sábado e domingo, às 16h. Grátis (os ingressos devem ser retirados uma hora antes do início do espetáculo). Teatro Popular do Sesi. Avenida Paulista, 1.313, em São Paulo, tel. 0-XX-11-284-2268. Até 2/7.

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