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'Habi' retrata estrangeira vivendo entre dois mundos

Coprodução entre Brasil e Argentina, filme retrata uma tentativa de aproximação entre culturas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 03h23

Para quem se queixa da falta de originalidade do cinema atual, eis aqui um exemplar que destoa do habitual servido nos cinemas. Em Habi, a Estrangeira, de María Florencia Álvarez, Analia (Martina Juncadella) é uma garota enviada para Buenos Aires pela mãe. Tem uma tarefa simples a realizar - entregar algumas peças de artesanato num determinado endereço. Deve voltar em seguida para sua cidadezinha, onde logo assumirá um posto no salão de cabeleireiro da família.

Acontece que um endereço errado a leva para outra parte. Para outro mundo, poderíamos dizer. Por acaso, ela entra em contato com a comunidade muçulmana, encanta-se, participa de um ritual de todo desconhecido para ela e decide por fim entrar num curso para estudar o Corão. A família não tem a menor ideia do que está se passando e por que a moça não volta para casa. Talvez nem ela saiba direito o que está fazendo.

Eis aí uma ideia tão simples quanto inesperada para falar do contato entre culturas diferentes. E não apenas culturas, mas pessoas concretas. Adotando o nome de Habiba, ou Habi, a menina revela-se uma estudiosa dedicada da cultura alheia. Convive com as pessoas, mas nem sempre compreende seus hábitos. Esforça-se. E vai morar numa pensão na qual tem por vizinha a mulher sensível e problemática vivida por Maria Luisa Mendonça. Sim, Habi, a Estrangeira é uma coprodução Brasil-Argentina e, portanto, abriga atores, no caso uma atriz brasileira, em seu elenco. Maria Luisa interpreta em portunhol. Bom, por sinal.

Mas, enfim, Analia ou Habi, como quiserem, não representa apenas o fascínio pelo outro, ou o desejo, sempre recorrente em todos nós, de ser outra coisa, uma nova pessoa, um Matia Pascal redivivo. Ela mesma é, se quiserem, uma estranha para si mesma. Uma estrangeira, esteja onde estiver. Em sua primeira persona, de moça argentina e simples, ou portando um véu, estudando o Corão e tentando se comportar como muçulmana legítima. Sua situação no mundo é problemática e tem de ser encontrada, em qualquer das situações.

Esse interessante filme de María Florência nos leva, ainda uma vez, a constatar a excelência dos roteiros no cinema argentino. Ninguém está dizendo que todo ele é assim, mas, pelo menos, a maior parte do que chega até nós é de alta qualidade em sua elaboração, digamos literária. Parecem trabalhos extremamente simples, mas, vistos de perto, revelam todo o refinamento, todo o seu artesanato. Teríamos a lucrar estudando-os com maior cuidado. Refletem, talvez, o maior índice de leitura dos hermanos, sua escolaridade mais aprimorada e constante.

O Brasil compensa carências de outras formas, é verdade, sendo mais intuitivo, com frequência mais selvagem e criativo. O grau de contenção argentino às vezes pode conduzir ao academicismo. Não é o caso aqui, em que o bom trabalho de texto vem acompanhado de uma direção bastante simples e depurada. E, claro, a atriz é um achado, com seu ar tanto decidido quanto desamparado. Contracenando com a personagem de Maria Luisa Mendonça, torna patente a diferença não apenas de caráter dos tipos ficcionais, mas das próprias intérpretes - intimista no caso da argentina, extrovertida, no da brasileira. Formam dupla interessante, no interior desse filme delicado e cheio de significados, apesar da aparência despretensiosa.

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