Há sempre o inesperado

A Ponte do Rio Kwai é um dos filmes clássicos de David Lean um dos inventores da narrativa cinematográfica. Realizado em 1957 e baseado num livro de Pierre Boulle, inventor da inesperada saga do planeta dos macacos, ele recebeu o Oscar de melhor filme de 1958. Para alguns críticos, A Ponte do Rio Kwai é tão brilhante quando Lawrence da Arábia (realizado em 1962); mas para mim ele permanece ao lado de Oliver Twist (1947) Passagem para a Índia (1984) e de Desencanto (1945) como uma das obras-primas do cinema, quando o cinema contava histórias e não se comprazia em explodir automóveis.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2017 | 03h00

Eu o assisti no cinema Icaraí, aqui em Niterói, numa época em que pensava ser cineasta e quando ir ao cinema era um ritual civilizatório. Nos anos 60, abundavam os filmes (russos, franceses, italianos e alemães) que “enchiam as medidas” – nossas almas e corações – como dizia o meu saudoso e calado pai. 

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A Ponte do Rio Kwai conta uma história manifestamente simples e tão paradoxal quanto a ponte (o símbolo latente) que o intitula. Nas selvas da Birmânia, durante a 2.ª Guerra, um coronel inglês imbuído de militarismo patriótico e seu batalhão são aprisionados pelos japoneses. Sua entrada no campo de derrotados, logo na abertura do filme, não sugere aprisionados, pois que, inesperada e orgulhosamente, eles estão estropiados, mas orgulhosamente assoviam a famosa marcha do coronel Bogey. Música que valeria um comentário. 

Tenaz, o coronel somente aceita construir a ponte para os seus algozes, nas condições que corajosamente estipula para o comandante japonês. A primeira ponte do filme, portanto, é a do elo entre o militarismo dos coronéis. A segunda, lida com a fuga de americano antimilitarista inesperadamente compelido, no entanto, a voltar com uma guerrilha inglesa para destruir a ponte que daria vantagem estratégica ao inimigo. A terceira é a descoberta que a ponte havia sido construída por ingleses. A quarta é testemunhar como o orgulho da sua construção engloba o patriotismo do heroico coronel inglês, fazendo com que ele tente impedir (agindo como um traidor) a sua destruirão. A quinta ponte é a ironia de testemunhar como uma ação intencional, o extremado e pouco discutido patriotismo parido pela guerra, transforma-se num conflito entre os próprios ingleses. Como diz pelo menos duas vezes no filme um elegante e profético major inglês: “There is always the unexpected (Há sempre o inesperado...)”.

Esse filme elabora esses inesperados que ligam rotinas e intencionalidades às suas imprevisíveis consequências. Nele, o patriotismo é suplantado pelo orgulho pessoal; aprisionados aprisionam seus verdugos; a fidelidade ao líder transforma ultraje em heroísmo; e a guerra entre nações ditas civilizadas é revelada como uma arrematada loucura. Eis um “filme de guerra” que, paradoxalmente, milita contra a guerra.

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Quem não nasceu de novo por causa de um inesperado? 

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Iniciei-me no exílio antropológico quando – de agosto a novembro de 1961 – fiz trabalho de campo entre os índios gaviões no sul do Pará. Mas como os exilados também se comunicam, solicitei a uma respeitável figura do último reduto urbano que visitamos, uma cidadezinha na margem esquerda do rio Tocantins, que cuidasse da correspondência que Júlio Cezar Melatti, meu companheiro de aventura, e eu, iríamos receber. Naquele mundo sem internet, telefonemas eram impossíveis e cartas ou pacotes demoravam semanas para ir e vir.

Recebemos uma rala correspondência na aldeia do Cocal. Mas quando chegamos à nossa base, no final da pesquisa, descobrimos que nossa correspondência havia sido violada. 

Por quê? Ora, por engano, respondeu o responsável, arrolando em seguida o inesperado e a ironia que até hoje permeia a atividade de pesquisa no Brasil. Foi quando soubemos que quem havia se comprometido a cuidar de nossas cartas não acreditava que estávamos “estudando índios”. Na sua mente, éramos bons demais para perdermos tempo com uma atividade tão inútil quanto estúpida. Éramos estrangeiros disfarçados – muito provavelmente americanos – atrás de urânio e outros metais preciosos. Essa plausível hipótese levou o nosso intermediário ao imperativo de “conferir” a correspondência.

Mas agora que os nossos rostos escalavrados pelo ordálio do trabalho de campo provava como estava errado, ele, pela primeira vez em sua vida, acreditou ter testemunhado dois cientistas em ação! 

Há sempre o inesperado.

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