'Há grande talentos, mas é preciso criar uma indústria'

Dov Simens, que deu aulas a diretores como Quentin Tarantino e Guy Ritchie, vem ao Brasil para orientar cineastas

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h18

"O Brasil tem muita história para contar. Só nesta semana, pense em quantos filmes poderiam ser feitos sobre os protestos. Só é preciso aprender a pensar mais em cinema sem depender do governo para financiá-lo." Assim Dov Simens resumiu sua visão sobre o atual cinema brasileiro. Guru da produção cinematográfica, Simens está em São Paulo esta semana para ministrar o curso Hollywood 2 - Day Film School, uma maratona de dois dias em que ensina todas as etapas da realização de um filme.

"Falo de filme independente como show business, que busca investidores", comentou Simens em conversa com o Estado no Novotel Jaraguá, onde dará suas aulas hoje e amanhã. "Hoje apresento as diretrizes do roteiro, direção, fotografia e produção de um longa para vários orçamentos. Amanhã, trarei questões sobre como financiar, distribuir, comercializar e ter lucro, sem depender de leis de incentivo fiscal", explicou ele, que faz questão de ressaltar que, quando fala de financiamento de filmes, não importa se você tem 5mil, 500 mil ou 5 milhões de dólares. "Importa achar os investidores e ter em mente o que se quer filmar", acrescentou. Ele tem no currículo alunos como Quentin Tarantino e Guy Ritchie e começou sua carreira como line producer (no Brasil, poderia ser traduzido como produtor executivo). "Não tenho talento para ser diretor, mas sempre fui ótimo com números, orçamentos, entendo muito de cinema, que não é arte, é entretenimento, negócio, show business", disse ele, com a experiência de quem um dia foi convidado para dar uma palestra na Universidade da Califórnia para ensinar os alunos a produzir filmes de "ultra baixo orçamento". Fez tanto sucesso que foi convidado para integrar o corpo docente. "Depois fui convidado pela New York University, passei por Harvard até criar meu curso e dar aulas pelo mundo. É meu talento."

Simens vem ao Brasil em momento que a produção de cinema cresce e que se buscam, além dos mecanismos fiscais e culturais oficiais, novas formas de viabilização. "Há muitos talentos aqui, mas vocês ainda não são uma indústria. É preciso que não se dependa de mecanismos, como ocorre em Hollywood. Aqui a realidade é outra, mas quem sabe este é o começo?"

Quem tem algo a acrescentar à discussão é o produtor Tommaso Fiacchino, que há duas semanas ministrou o workshop Produção Criativa e Indústria Cinematográfica, no centro cultural b_arco. "Muita coisa está acontecendo no Brasil, que está no centro das atenções. As pessoas querem coproduzir com o País", comentou Fiacchino, que tem vasta experiência em Hollywood e em seu curso ensina como propor e desenvolver ideias de filmes, considerando aspectos tanto criativos quanto comerciais. Ao contrário de Simens, ele vê com bons olhos o incentivo fiscal. "Em todo o mundo, filmes de arte são produzidos com dinheiro público. É um incentivo importante", diz. "O que o Brasil precisa é encontrar um mix. E aprender ampliar seu leque, filmar com produtores estrangeiros, encontrar temas de apelo internacional. Este é o caminho da maturidade."

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