GABRIELA BILÓ / ESTADÃO
GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

'Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão feita por Alvim', diz Toffoli

Esta foi a manifestação mais contundente até agora do presidente do Supremo sobre uma declaração oficial de integrantes do governo Bolsonaro

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 12h35

BRASÍLIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, disse nesta sexta-feira, 17, que “há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura” com referências ao nazismo. As declarações de Roberto Alvim chocaram integrantes de tribunais superiores em Brasília.

“É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade judaica”, afirmou o presidente do Supremo, em nota divulgada à imprensa. Esta foi manifestação mais contundente até agora de Toffoli sobre uma declaração controversa de integrantes do governo Bolsonaro.



Antes, Toffoli havia criticado uma fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre uma possível reedição do AI-5 em caso de radicalização dos protestos de rua no Brasil. “O AI-5 é incompatível com a democracia. Não se constrói o futuro com experiências fracassadas do passado”, afirmou Toffoli na época. O tom, desta vez, foi mais duro. 

Em sua conta pessoal no Twitter, o ministro Gilmar Mendes também reprovou o vídeo de Alvim. “A riqueza da manifestação cultural repele o dirigismo autoritário nacionalista. A arte é, na sua essência, transformadora e transgressora. O que faz do Brasil um país grandioso é a força da sua cultura, fruto de um povo profundamente miscigenado e diversificado”, escreveu Gilmar.

 


O ministro Rogério Schietti, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por sua vez, disse à reportagem que não pode "deixar de externar surpresa e preocupação" com o pronunciamento do secretário.

“Intenções de que se ‘faça uma cultura que não destrua, mas salve a nossa juventude’, de que ‘almejamos uma nova arte nacional’ ou de que ‘a cultura será igualmente imperativa’ e de que se deseja ‘redefinir a qualidade da produção cultural em nosso país’, além de outras insólitas frases de palanque transmitidas em vídeo institucional, indicam um nítido desconhecimento do que seja arte e cultura e sinalizam para um direcionamento ideológico do que há de mais natural e espontâneo em qualquer nação. A história já mostrou onde terminou esse tipo de discurso”, disse Schietti.

Para um outro magistrado, que pediu para não ser identificado, o vídeo é “neonazismo inconstitucional escancarado de um subalterno”.

 

O discurso de Roberto Alvim


Em vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, Alvim cita textualmente trechos de um discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels.

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada", diz Alvim no vídeo.

"A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada", disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

O texto lido por Alvim em tom solene e pausado é bem mais longo, com outros trechos claramente inspirados pela ideia copiada de Goebbels. Em entrevista ao Estado/Broadcast, o secretário disse que a “origem é espúria, mas as ideias contidas da frase são absolutas perfeitas e eu assino embaixo”.


 

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