Há cem anos morria Wilde, o primeiro "pop star"

O túmulo de Oscar Wilde, morto há cem anos no dia 30 de novembro, é um dos mais visitados do cemitério de Pére Lachaise em Paris. A sepultura do irlandês foi reformada há alguns anos, ganhou uma arquitetura de gosto duvidoso, mas útil para receber inúmeras marcas de batom e mensagens de agradecimentos em várias línguas.Nas décadas de 60 e 70, Wilde tornou-se ícone da literatura gay. Sua língua ferina, o estilo exótico e dandinesco e a mordacidade em revelar a hipocrisia da sociedade forjaram o modelo ideal do seu pioneirismo militante, o que acabou prejudicando a leitura de sua obra.Ao mesmo tempo em que esgrimia sua extraordinária capacidade de chamar atenção para si mesmo, Wilde sempre insistia na superioridade de sua obra. Pagou caro ao confundir sua vida com o tesouro artístico por ele construído.A própria questão da homossexualidade adquiriu uma dimensão nunca conscientemente pensada por ele. "Ele foi o primeiro mártir do homossexualismo, mas sem o desejar ", reconhece Marcello Rollemberg, que acaba de traduzir várias frases de Wilde no livro A Esfinge e Seus Segredos, a sair no mês que vem pela Editora Record. Wilde escreveu e viu encenada sua primeira peça, Vera ou os Niilistas, em 1880. Dois anos depois, fez uma série de conferências históricas nos Estados Unidos e tornou-se um dos grandes nomes da língua inglesa.Nessa altura, anos de pleno fastígio da Era Vitoriana, Wilde tornou-se figura obrigatória nos aristocratas salões ingleses. Seu prestígio, diz Rollemberg, só encontra grau de comparação com o vedetismo dos atuais pop stars. O historiador Peter Gay já havia salientado a flexibilidade do liberalismo inglês na segunda metade do século 19. Wilde soube utilizar-de dele até o momento em que se colocou acima de seus limites. Fatal semelhança - A história é conhecida. Depois de envolver-se com Alfred Douglas, filho do marquês de Queensberry, Wilde foi convencido pelo amigo a entrar com um processo de difamação contra seu pai. Foi o primeiro de uma série de acontecimentos que levaram à condenação e prisão do escritor por homossexualismo, de que ele jamais se recuperou, sucumbindo cinco anos depois num quarto de hotel barato em Paris.Douglas não foi o modelo para O Retrato de Dorian Gray, embora o único romance de Wilde tenha sido publicado no mesmo ano em que os dois se conheceram. A semelhança das trajetórias entre o artista Basil Hallward, personagem do livro, e de seu criador, ambos esmagados por suas paixões, é mais um elemento pertubador da biografia do escritor que ajudou em sua mitificação. Segundo Camile Paglia, Douglas atraiu Wilde a uma paixão e um fascínio de romantismo tardio, desordenando seu maduro julgamento e encerrando sua carreira no auge da fama e poder artístico. Em 1895, início de seu processo e julgamento, o teatro de Wilde atingiu seu ponto culminante com a encenação de Um Marido Ideal e A Importância de Ser Prudente. O título dessa última não poderia ser mais irônico quando projetado para o que os meses e anos seguintes reservavam a seu autor. No dia da estréia, Wilde estava de férias na Argélia, onde encontrou o escritor francês André Gide. Foi o primeiro contato de uma série em que o autor de O Imoralista tentou persuadir o irlandês a aderir à causa homossexual. Wilde não estava interessado. É sua a tese de que toda arte é imoral e ele estava mais preocupado em reavaliar sua vida, sobretudo depois de ter escrito no cárcere De Profundis, longa carta endereçada a Alfred Douglas. Para o psicanalista Jurandir Freire Costa, autor de A Inocência o Vício, Oscar Wilde ajudou a forjar a imagem do homossexual mundano, transitando entre periódicos literários, cafés e estações de veraneios de luxo: "Wilde cultivava a excentricidade, o histrionismo e a exibição pública de seus dotes mundanos e, conscientemente, procurava associar esse estilo de vida à realização homoerótica. Mas, na prisão, percebeu a farsa da liberdade que usufruía". Há cem anos de sua morte, com sua obra sendo reeditada no Brasil (curiosamente, suas peças são raramente montadas aqui), depois da extraordinária biografia de Richar Ellmann e do cinema celebrando-o em Wilde, de Brian Gilbert, com Stephen Fry, é hora de separar a obra da sua vida tumultuosa.

Agencia Estado,

30 de novembro de 2000 | 14h52

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