Barton Silverman/The New York Times
Barton Silverman/The New York Times

Há 50 anos, Truman Capote organizou uma festa como nunca se viu

No fim de novembro de 1966, o escritor realizou um pequeno baile de máscaras para 540 pessoas

The New York Times

02 Dezembro 2016 | 15h32

E se você desse uma festa e todos comparecessem? Foi exatamente o que ocorreu na chuvosa noite de 28 de novembro de 1966, quando 540 convidados, amigos chegados e mais queridos de Truman Capote compareceram ao que o escritor insistiu em chamar de “um pequeno baile de máscaras para Kay Graham e todos os meus amigos”.

Essa noite sobrevive em filmes e nas lembranças de convidados que ainda estão vivos. Foi uma festa que provavelmente não aconteceria de novo, diante do fato inusitado na época, hoje comum, que foi a reunião de grupos sociais os mais diversos.

“Jamais haverá outra festa em que pessoas como Andy Warhol entra numa sala com uma figura como Babe Paley”, disse Deborah Davis, autora do livro publicado em 2006, “Party of the Century: The fabulous history of Truman Capote and the Black and White Ball” A festa do século: a fabulosa história de Truman Capote e o Baile em preto e branco), referindo-se a um dos chamados cisnes de Capote - a esposa socialite de William Paley, que fundou a rede CBS.

Antes desse baile ninguém jamais imaginaria, muito menos esperaria, uma festa com uma lista de convidados que reuniu em um único salão a poetisa Marianne Moore e Frank Sinatra, Gloria Vanderbilt e Lionel Trilling, Lynda Bird Johnson e o Maharani de Jaipur, a princesa italiana Luciana Pignatelli (com um brilhante de 60 quilates, emprestado de Harry Winston) e o cineasta Albert Maysles.

Quando Capote convidou seus amigos para uma noite de dança (com espaguete e um guisado de frango à meia-noite) estava tremendamente famoso e rico, com os lucros obtidos com seu livro “A Sangue Frio”.

No Grande Salão de Baile do hotel Plaza, às 22 horas daquela noite, aristocratas europeus se misturavam com escritores e erudito; personalidades de sangue azul bebiam champanhe Tattinger ao lado de figuras de Hollywood e da Broadway; membros da impassível classe média de Garden City, Kansas, que hospedaram Capote nos anos em que ele fez suas pesquisas para compor sua obra-prima, dançavam ao som da orquestra de Peter Duchin, junto com o fotógrafo e diretor de filmes Gordon Parks, que mais tarde brincou que Harry Belafonte e Ralph e Fanny Ellison representavam o “preto” do baile em Preto e Branco”.

Meio século depois daquela noite de segunda-feira, logo após o Dia de Ação de Graças, inúmeras outras festas lembravam, interpretavam ou simplesmente copiavam o baile dado por Capote.

“Houve provavelmente mais bailes em preto e branco nessa época do que representações da Guerra Civil”, disse Davis.

Mas talvez o evento mais lembrado foi o do magnata Sean Combs, que usou a festa de Capote como modelo para a celebração do seu 29º aniversário em 1998, quando teria gasto mais de US$ 500.000 para decorar o Cipriani com uma pista de dança translúcida, marcada com monogramas e áreas reservadas com Plexiglas para entreter uma coleção de celebridades, entre elas Martha Stewart, Ronald Perelman, Sarah Ferguson e Donald Trump.

Agora é difícil lembrar uma época em que a fronteira entre sociedade e celebridades era nitidamente delineada e raramente cruzada. E hoje, uma era em que muitas celebridades participam de festas mediante o recebimento de cachê, é notável lembrar de uma época em que as pessoas frequentavam festas apenas para se divertir.

“Truman sempre teve uma fantasia do “grand monde”, do mundo da inteligência, do mundo literário, cada um, à sua maneira, precioso para ele”, disse Robert Silvers, fundador e editor da The New York Review of Books.

“Era extremamente importante para Truman ser uma estrela em todos esses mundos”, disse ele, referindo-se às elites por herança ou realizações que Capote cultivava com equivalente ardor. “A mistura de todos esses grupos era claramente a emanação do sonho de Truman”, acrescentou.

Mesmo depois de meio século, a festa ainda mantém uma aura de sonho, em fotografias e noticiários nos cinemas mostrando os convidados em black tie e vestidos de alta costura, máscaras assinadas por Adolfo e um jovem fabricante de chapéus conhecido como Halston.

Quem por vezes foi esquecida nos relatos desse baile é aquela que foi a convidada de honra, Katharine Graham, cuja família era proprietária da Newsweek e do The Washington Post. Depois do suicídio do seu marido Philip Graham, três anos antes, Katharine passou a dirigir o jornal durante duas décadas consideradas as mais antológicas na história do Post, mas parecia pouco à vontade num papel para o qual não estava preparada, disse um convidado, o psicoterapeuta Gillian Walker.

Tendo crescido nos círculos de elite de Washington, Gillian Walker era amigo de infância de Katharine, portanto tinha uma perspectiva única de como o poder era distribuído nesses anos anteriores à era feminista.

“Todas aquelas mulheres, por mais elegantes que fossem, ou o que fizessem, no final ainda eram apenas as esposas”, disse Walker, referindo-se a Katharine Graham, Babe Paley, Slim Keith, Gloria Vanderbilt e Gloria Guinness. “Devido às complexidades da sua própria vida, Truman, como um estranho no ninho, compreendia essas mulheres. E o que fez por Kay foi algo maravilhoso, oferecendo-lhe uma festa que a inseriu no “grand monde” que ela deixara para trás quando encontrou Phil”, disse Walker.

A compaixão, uma característica refletida nos melhores trabalhos escritos de Capote era um aspecto enraizado do seu caráter. Pelo menos antes da sua grande festa, que, segundo alguns, foi o inesperado canto do cisne do escritor, uma fase de ouro final antes de ele descambar para as drogas e o álcool.

“As pessoas esquecem que Truman era uma pessoa muito humana” disse Ashton Hawkins, que durante décadas foi curador do Metropolitan Museum of Art e em 1966 trabalhava como advogado. Ele lembrou quando seu anfitrião o levou pelo braço e o colocou num canto do salão onde se encontrava Rose Kennedy, só, abandonada.

“Achei engraçado você se sentar ao lado da mãe do presidente. Todos falavam com todos e se sentavam onde queriam”.

Para Peter Duchin o baile “fechou uma era de exclusividade elegante e marcou o início de outra, da mídia insana”.

“Foi uma festa maravilhosa porque era indescritível a miscelânea de pessoas, de todos os tipos e todas as idades”, disse o joalheiro Kenneth Jay Lane, que, aos 34 anos de idade, estava entre os participantes mais jovens. O grande momento da noite para ele foi quando se dirigiu até o canapé dourado onde estava Tallulah Bankhead, chamando a atenção de todo mundo e fumando furiosamente.

“Conversei com ela apenas três minutos, mas então podia dizer que falei com Tallulah Bankhead”, disse Lane.

Desde o início Capote já tinha plena compreensão do que era a fama e uma percepção profética do potencial não explorado da celebridade. Limitando a participação da imprensa na sua festa a quatro jornalistas escolhidos a dedo (incluindo Charlotte Curtis, deste jornal) ele realçou a aura de exclusividade do evento e ao mesmo tempo conteve as críticas sobre a sua modéstia.

Não importa que alguns convidados, como Greta Garbo, não tenham comparecido. O efeito foi alcançado. O The New York Times publicou a “Lista dos convidados à festa no Plaza Hotel”, distinção reservada até então apenas aos jantares oferecidos na Casa Branca e similares.

Sob muitos aspectos, o baile serviu como um guia, apontando o caminho para Kardashia, uma terra mítica onde a realização é opcional e a fama um fim em si mesmo. E ajudou também a apagar para sempre as fronteiras que separam o público do privado.

Tradução de Terezinha Martino

 

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