Arquivo/AE
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Há 50 anos Sartre e Simone de Beauvoir visitavam São Paulo

“Venha ao Brasil tomar conhecimento dos problemas concretos que afetam os países subdesenvolvidos”, disse a Sartre o escritor Jorge Amado, em uma de suas viagens a Paris.

Rose Saconi, do Arquivo

02 Setembro 2010 | 10h41

 

A sugestão foi aceita. No dia 2 de setembro de 1960 Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, acompanhados de Jorge Amado, desembarcavam no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O casal de intelectuais foi recepcionado por estudantes e jornalistas. “O povo de São Paulo saúda em Sartre o defensor da revolução cubana”, dizia uma faixa. Nenhum representante do consulado francês esteve presente à chegada.

 

documento Veja a página do Estado sobre a visita

 

Do aeroporto, Sartre e Simone de Beauvoir, que vieram à cidade como convidados dos alunos da Escola Paulista de Medicina, dirigiram-se para o hotel Excelsior onde concederam uma entrevista coletiva. “Aos meus olhos o Brasil é a mais completa democracia do Ocidente e é, ao mesmo tempo, uma ditadura de 10 milhões de pessoas que vivem nas cidades, aproveitando-se do extraordinário desenvolvimento industrial sobre 60 milhões de pessoas que vivem no interior, na mais absoluta miséria”, disse ao jornalista do Estado, numa entrevista exclusiva.

 

A viagem ao Brasil foi a mais longa, a mais política de todas as viagens do filósofo existencialista. Jorge Amado e sua mulher, Zélia Gatai, organizaram todo o cronograma da visita. O casal francês conheceu plantações de tabaco, café e de cacau, poços de petróleo, mercados populares e cidades modernas. Viram favelas, fazendas, vaqueiros, foram iniciados no candomblé e beberam batidas. Visitaram Recife, Bahia, Olinda, Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Araraquara, Fortaleza e a Amazônia. Tiveram até direito a cocares de penas e arcos e flechas ofertados por índios. Encontraram personalidades brasileiras em todos os domínios profissionais, o arquiteto Oscar Niemeyer, o presidente Juscelino Kubitschek, o editor Rubem Braga, o pintor Di Cavalcanti, entre outros.

 

Em Araraquara, interior de São Paulo, participou de uma conferência organizada pelos então professores Fernando Henrique, Ruth Cardoso e Roberto Schwartz.  Após assistirem à uma manifestação de estudantes, Sartre e Simone foram homenageados com um jantar oferecido pelo diretor de O Estado de S.  Paulo, Júlio de Mesquita Filho, em sua fazenda em Louveira.  

 

Fim. Sartre morreu aos 74 anos, no dia 15 de abril de 1980, de um edema pulmonar. Em sua última entrevista ao jornal francês Le Nouvel Observateur disse que jamais conhecera o desespero e a angústia. “Penso que a esperança faz parte do homem”, declarou.

 

Saiba mais sobre Sartre:

 

*A visita de Jean Paul Sartre e sua mulher Simone de Beavoir ao Brasil em 1960 foi um dos agitados acontecimento culturais da época.

 

*Recusou o Prêmio Nobel de Literatura em 1965. Alinhou-se ao lado dos estudantes em maio de 1968 contra o Partido Comunista Francês, mas afirmava que o marxismo era a filosofia insuperável da época.

 

*Era um filósofo de ação, de comícios. “O silêncio é reacionário”, disse em 1976.

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