Michael Lavine
Michael Lavine

Há 25 anos, morria Kurt Cobain, líder do Nirvana; empresário da banda lança livro sobre o músico

Vocalista e guitarrista da icônica banda se suicidou aos 27 anos, no dia 5 de abril de 1994

Geoff Edgers, The Washington Post

05 de abril de 2019 | 08h30

"Danny, ele está morto”. Isso foi em quatro de março de 1994, quando David Geffen, o magnata do setor de música que havia contratado a banda três anos antes, telefonou para Danny Goldberg, empresário do Nirvana para lhe dar a terrível notícia: Kurt Cobain morrera por causa de uma overdose de um poderoso sedativo quando estava em Roma.

Curiosamente foi um alarme falso. Mas o líder do Nirvana morreria um mês depois em Seattle, aos 27 anos, tendo se suicidado com um tiro.

O novo livro de Goldberg, Serving the Servant: Remembering Kurt Cobain, é um tributo generoso e detalhado,  juntamente com um inquietante “tentar limpar Cobain” e o hilário “ajudando Cobain a fugir discretamente pela porta dos fundos para evitar Axl Rose”. O livro, com lançamento marcado para dois de abril, oferece uma brilhante mostra do que foi o Nirvana: Cobain, o baixista Krist Novoselic e o baterista Dave Grohl.

Conversamos recentemente com Goldberg, 68 anos – que trabalhou para Led Zeppelin na década de 1970, dirigiu a Warner Bros. Records e é empresário, entre outros, de Steve Earle. Ele falou sobre o livro a ser lançado.

Kurt às vezes era uma espécie de rei preguiçoso ou um sujeito que não se importava muito com as coisas. Da maneira como você o apresenta, ele na verdade se preocupava com todos os detalhes.

Sim, quando conversei como Courtney (Love, a mulher de Cobain), ela disse que: “nós éramos ambiciosos. Eu achava que iria rebaixar o Nirvana”. E depois de uma pausa, ela acrescentou: “Sabe, Kurt também era  ambicioso, mas escondia isso um pouco melhor”. Mas isto fazia parte da sua arte. Ele era extremamente focado e disciplinado quanto a realizar o que queria realizar. Era uma pessoa que exigia meses de ensaio antes de entrar num estúdio para gravar. Que tinha uma tremenda ética de trabalho. E ao mesmo tempo criou um personagem chamado Kurt Cobain. Quando ocultava algumas das suas ambições isto era algo consciente e fazia parte de uma persona que ele quis criar, e que ele seria admirado como uma criança. Ele não o único que fez isto. Penso em Bob Dylan e os rapazes do R.E.M. que também agiram assim.

É difícil para as pessoas compreenderem o quão rapidamente tudo mudou para o Nirvana e para Kurt e Courtney.

Eles formavam uma banda que, quando viajavam, tinham de dormir no chão da casa de alguém porque não podiam pagar um quarto de hotel. Não tinham dinheiro, mas tinham o sonho de ser uma banda punk jovem que acreditava no que estava fazendo e uma subcultura que os respeitava. A MTV estava no seu apogeu e um mês de apresentação no canal o tornou famoso e conhecido de milhões de pessoas. Assim o grupo se tornou um fenômeno global incrivelmente rápido.

"Nevermind"  foi lançado em setembro de 1991. Courtney e Kurt se uniram em outubro, um mês depois de o álbum ser publicado. E permaneceram juntos o resto da vida dele. E então, em janeiro, alguns meses depois, quando se apresentaram no programa Saturday Night Live, “nós percebemos que havia um problema com heroína. Assim, alguns meses depois que você se torna um sucesso e vive com uma nova namorada extremamente intensa que logo se torna sua mulher e tem também o olho da imprensa sobre você, o  que costuma ocorrer no caso dos artistas músicos, tudo isto ao mesmo tempo é muita coisa para suportar.

Você conversou com Courtney e Novoselic, mas não com Grohl.

Queria falar com ele. Fiz um pedido para John Silva, seu empresário, mas não obtive resposta. Este é um livro meu, minha versão do Nirvana e de Kurt durante aqueles anos quando eu estava, sem dúvida, muito mais próximo dele do que do Dave.

Pergunto se o seu claro apoio a Courtney, que é uma figura polarizadora, não seria a razão pela qual Silva, um sujeito que trabalhou muito com você, não quis conversar a respeito.

Veja, não falei muito com John durante anos. Ele se tornou uma figura extraordinariamente bem sucedida e mereceu seu sucesso e é um excelente empresário. Mas tenho amigos muito próximos dos tempos da faculdade com os quais nunca falo. Isso faz parte da natureza dos ciclos da vida...

O único momento em que falo dele no livro foi quando estava sentado em algum lugar com Courtney e Kurt e ele falou sobre como as pessoas deviam realmente entender o quanto ele amava Courtney e não desrespeitava o relacionamento. E eu sabia que Hole (a banda de Courtney)  estava procurando um empresário e me ocorreu dizer “Kurt, você acha que eu deveria ser empresário do Hole?”. Ele me respondeu, “Oh, isso seria fantástico”. Aquilo soou como uma validação da parte dele. Quando falei para o John no dia seguinte, ele me olhou e disse, “ótimo, trate do assunto com ela”.

Há um momento maravilhoso quando Kurt conta a você sobre o modo de cantar de Dave, que ninguém conhecia até o Foo Fighters.

Kurt me disse: “acho que você não sabe como Dave canta bem, mas eu o ouço cantando harmonias todas as noites”. Era como se ele estivesse realmente falando isso para que eu soubesse,  porque ele tinha esse lado fraterno, um lado doce, mas também havia um toque de inveja. Quero dizer, ele era uma pessoa competitiva.

Mas se Kurt estivesse vivo, Dave Grohl iria  querer cantar e compor suas próprias músicas?

Diria que a probabilidade é que Dave criaria algo similar ao que fez com os Foo Fighters. Eu podia não saber o quão talentoso ele era, mas ele sabia. Dave sabia que era um compositor, que podia ser um vocalista, e Kurt tinha outros interesses musicais que não necessariamente se encaixavam no seu Nirvana e era disto que o álbum MTV Unplugged tratava. Foi apresentado originalmente tendo em vista o marketing (O álbum final da banda) do álbum  In Utero. Ele não compôs muito dos sucessos. E ele tinha os Meat Puppets e na tournée de In Utero. Ele trouxe um celista e outro guitarrista com eles.

Houve rumores na época de que ele faria uma gravação solo com Michael Stipe.

Não há dúvida, Courtney também disse isto. Kurt iria fazer uma gravação com Stipe, fazer alguns demos. O que não significa que não acabariam num álbum do Nirvana.

A parte mais triste do livro é realmente para onde ele leva. Como fãs, nós sempre perguntamos por que nossos heróis não podem ser salvos. Mas no livro observamos que todos tentaram ajudar. Mas mesmo o especialista em casos de dependência que curou Aerosmith saiu da sala aterrorizado depois de alguns minutos passados com Kurt e Courtney.

Seu nome era Bob Thimmons e naturalmente os advogados dos editores estavam paranoicos, preocupados com um possível litígio judicial. Kurt era especial. Não se encaixava em nenhum conceito padrão e foi isso que o tornou um músico excelente e por vezes dificultou nossa ajuda. Não sei a razão pela qual uma pessoa se mata. Há centenas de livros sobre isto. E psicólogos, psiquiatras, yogis, padres, rabinos e filósofos, todos se envolveram nessa luta e ao que parece ninguém obteve uma resposta sobre a razão pela qual de 20 pessoas que foram abusadas ou com similares 19 delas não se matam, e uma sim.

O que você espera que as pessoas pensem a respeito de Kurt em 2019?

Apenas sobre o quão brilhante ele era e o seu lado bom. Sou um fã de Hendrix e quando eu me lembro dele não penso na sua morte, mas nos seus solos de guitarra. Eu esperaria que Kurt fosse colocado nessa categoria. Você nunca vai deixar de saber que ele se matou. Mas espero esclarecer outros aspectos dele que não foram muito expostos. Espero conseguir isto com este livro. Que as pessoas consigam ver seu sorriso em sua mente, da maneira que eu vejo na minha.

Tradução de Terezinha Martino

 

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