Há 15 anos, terminava a censura no Brasil

Neste sábado, dia 29, às 19h30, o Cinejornal, do Canal Brasil (Net/Sky), estará exibindo um especial sobre os 15 anos do fim da censura no País. Durante a dura fase do regime militar, jornais tinham de publicar receitas de bolos no lugar de artigos polêmicos só para chamar a atenção de alguma forma e avisar os leitores que estava sob censura, algo que afetou também muitos programas na televisão, como a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, que em 1975 chegou até a ter alguns capítulos gravados, mas só foi liberada após o fim da censura, em 1985. No dia 27 de agosto de 1975, durante o mandato do presidente Ernesto Geisel, quando os brasileiros aguardavam pela estréia de Roque Santeiro, o locutor Cid Moreira surgiu na tela lendo um editorial da Rede Globo falando sobre a proibição da novela. Com o fim da censura, a obra de Dias Gomes passou pela adaptação de Aguinaldo Silva, ganhando traços mais atuais, mas mantendo a mesma essência.Lima Duarte, intérprete do célebre Sinhozinho Malta, foi o único ator do primeiro elenco a ser convocado para a segunda versão da novela, que marcou época na teledramaturgia brasileira. Na primeira versão, a fogosa Viúva Porcina, consagrada por Regina Duarte em 1985, seria vivida por Betty Faria, e o conquistador Roque, ao invés de José Wilker, seria interpretado por Francisco Cuoco. Filmes censurados - No especial preparado pelo Canal Brasil, que também será reprisado no dia 30, às 16h45, foram reunidas imagens e filmes - agora, sem cortes - que fazem um retrospecto dos efeitos da repressão nas artes do País. Depoimentos de cineastas que tiveram seus trabalhos censurados pontuam todo o programa. Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, filmado em 1981, é uma das atrações do canal. "Me atrevi a fazer um filme ainda durante o regime militar. Haviam riscos, mas eu não podia deixar de botar aquilo pra fora. Era como se fosse um sapo que eu tivesse engolido durante muitos anos", relembra Farias. O jornalista Carlos Heitor Cony, atual colaborador do programa Mais Você e mais novo membro da Academia Brasileira de Letras, também dá seu depoimento ao programa. "A censura me maltratou internamente, tanto que eu reagi. Por isso fui preso seis vezes". Já o cineasta Luiz Carlos Barreto lembra uma conversa que teve com um dos censores atuantes da época. "Um dia, um deles me disse que é diferente ver um filme estrangeiro e um brasileiro, porque quando você vê uma cena de sexo com uma estrangeira é algo distante da gente, mas quando é com uma atriz brasileira, a gente tem a impressão de que aquilo está acontecendo com um parente nosso". O fim da censura foi anunciado em 1985 pelo então ministro da Justiça Fernando Lyra, no governo de João Figueiredo, numa cerimônia que reuniu cerca de 700 intelectuais no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro. Na ocasião, foram revogadas todas as leis sobre censura de diversões e espetáculos públicos, o que serviu até mesmo para mudar o nome da profissão dos censores para classificadores. Na mesma noite, Lyra comunicou a liberação de alguns filmes para a televisão, como Pra Frente Brasil, de Roberto Farias; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; e Os Condenados e Avaeté - A Semente da Vingança, de Zelito Viana.

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