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Terminou em setembro a primeira temporada de Mr. Robot, uma série da emissora USA que foi aclamada pela crítica e está para ser exibida no Brasil pelo canal Space. A aceitação praticamente unânime é ainda mais notável quando sabemos o nível de exigência do público-alvo – até Edward Snowden afirmou estar impressionado com a tecnologia retratada na série e disse ser fã do programa.

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2015 | 02h00

O protagonista é Elliot Alderson, um hacker depressivo, antissocial e viciado em morfina que, durante o dia, trabalha numa empresa de segurança cibernética e, à noite, é uma espécie de vigilante solitário, denunciando pedófilos e outros criminosos. Em vez de fazer amigos, Elliot os hackeia, chegando ao ponto de bisbilhotar a vida pessoal da terapeuta, dos colegas e do chefe.

Após ser contatado por um homem misterioso de codinome Mr. Robot, ele se junta a um grupo de hackers anarquistas chamado fsociety – claramente baseado nos Anonymous – cujo objetivo é derrubar o sistema de uma gigantesca corporação financeira e, assim, zerar as dívidas das pessoas em todo o mundo. O discurso é assumidamente inspirado em filmes como Clube da Luta, Taxi Driver e Laranja Mecânica, com personagens deslocados e inconformistas que tentam transformar o sistema, ainda que de forma questionável.

Uma das grandes qualidades de Mr. Robot é a tentativa de captar com realismo o submundo do hacktivismo, sem precisar recorrer a clichês do gênero como nerds caricatos que teclam muito rápido e conseguem invadir um sistema em poucos segundos, depois de acompanhar uma grande barra vermelha concluindo o download e emitindo bipes metálicos. Em vez disso, Mr. Robot mostra Elliot digitando monotonamente em um terminal, usando Kali Linux e ferramentas reais como FlexiSPY, Metasploit e RSA SecurID, o que pode às vezes demorar dias e nem dar certo. 

Acima de tudo, a série mostra a forma mais comum de obter informações: a engenharia social, ou seja, investigar os padrões de comportamento humano e tentar encontrar um ponto de vulnerabilidade que possa ser explorado. “As pessoas são as melhores falhas. Nunca tive muita dificuldade em hackear a maioria delas. Se você escutá-las e observá-las, suas vulnerabilidades aparecem como um letreiro de néon em suas testas”, diz Elliot. 

Aí está o ponto forte da série, embora seja um pouco estranho que o personagem com fobia social seja o mais hábil em ler e manipular pessoas.

Algumas das outras subtramas são fracas e os diálogos podem às vezes soar forçados, mas nada que estrague a experiência de acompanhar o esquisito Elliot, um cara comum de olhos esbugalhados e capuz que despacha em voice-over um discurso anticorporativo dos mais virulentos, ainda que ele mesmo não saiba bem o que é real ou não. 

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