Guris do sul ensinam a crescer

Filme da gaúcha Ana Luíza Azevedo, Antes Que o Mundo Acabe é mais uma boa dica para teens

Luiz Carlos Merten PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

O trio de protagonistas. Filmado em tom luminoso, meio paltoril, lembra a atmosfera de truffaut, se ele estivesse feito jules et Jim com adolescentes

 

 

 

 

Segunda à tarde, a entrevista realiza-se na sede da Casa de Cinema, no bairro Rio Branco. A produtora cresceu, avançando sobre a casa vizinha. É aí que a diretora Ana Luiza Azevedo recebe o repórter do Estado para falar sobre Antes Que o Mundo Acabe. O filme vencedor de prêmios importantes no Festival de Paulínia do ano passado - incluindo melhor direção e prêmio da crítica - está há 14 semanas em cartaz na capital gaúcha. Estreia hoje em São Paulo.

É ótimo. Embora o cinema brasileiro não tenha o hábito de investigar o universo dos adolescentes - e pré-adolescentes - de classe média, Antes Que o Mundo Acabe chega ao mercado num momento em que outros dois títulos já trilharam esse caminho, As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, e Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho. Por uma estranha coincidência, Antes Que o Mundo Acabe também estreia com Um Doce Olhar, que venceu o Festival de Berlim, em fevereiro (leia na pág. seguinte). O filme turco conta a história de um menino num universo meio mágico, mas em ambos a relação com o pai, mesmo diferenciada, é decisiva. Ana Luiza admite que o fato de ser mãe - de dois adolescentes - tem a ver com suas escolhas.

Ela já contou, no curta Dona Cristina Perdeu a Memória, a história de um menino e sua vizinha vítima de Mal de Alzheimer. O ator (Pedro Tergolina) é o mesmo que faz o pré-adolescente de Antes Que o Mundo Acabe. Entre a decisão de filmar e a estreia nos cinemas, passaram-se cerca de sete anos, um período longo demais, durante o qual a diretora não esteve parada. "Trabalhei em muitas projetos da Casa de Cinema, inclusive codirigindo com o Jorge (Furtado)." O fato de ser estreante dificultou a captação. Mas ela não se queixa. "O tempo de espera ajudou na maturação do projeto. Se tivesse feito o filme antes, seria outro e o de agora é melhor", explica. Antes Que o Mundo Acabe baseia-se num livro de Marcelo Carneiro da Cunha, autor gaúcho que investiga o universo da infância e da adolescência e que, no Sul, é muito conhecido - seus textos são adotados em escolas e isso já deu uma entrada para o filme, junto a um importante segmento do público.

"Os jovens não veem muito cinema brasileiro", diz a diretora. O fato de o livro ser conhecido e de ela ter feito todo um trabalho junto a escolas do Rio Grande do Sul ajudou a vencer a resistência. Casada com o montador Giba Assis Brasil, Ana conta que o marido sempre teve o hábito de ler em voz alta para os filhos, quando crianças. Foi Giba quem lhe chamou a atenção para o livro, dizendo que havia um bom material ali dentro. Ana se encantou. "Tem muitas camadas." O garoto que faz o rito de passagem, o triângulo que forma com o colega e a menina que ambos desejam, a relação com o pai distante, tudo isso somado a uma discussão ética. Essa última fascinou particularmente a diretora.

Versões. "Como mãe e artista, me interessa esse tipo de discussão, mas sem ser professoral nem impositiva. Jovens reagem muito às verdades absolutas que lhes são impostas." O roteiro foi escrito em parceria com Paulo Halm, mas Ana não ficou satisfeita. Ele ganhou novas versões com Giba Assis Brasil e Jorge Furtado - todos têm crédito. Faltando pouco para o início da filmagem, ela ainda não tinha o ator.

Dando-se conta de que Pedro Tergolina, de Dona Cristina Perdeu a Memória, estava com a mesma idade do personagem, ela o convidou para participar de uma oficina de interpretação, sem o compromisso de ele virar o protagonista. Pedro fez a oficina e ganhou o papel. Ana avalia como muito interessante a resposta do público jovem no Rio Grande. "Muita gente fica brava com a garota. Acha que houve traição, diz que o amigo devia ter falado com o protagonista. E houve uma menina que disse que ele não devia ter perdoado o pai. Tudo isso provoca discussão. É bom para a maturação do próprio público."

 

 

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