Guitar Heroes

O que Edgard Scandurra fez pela guitarra nos anos 80, Fernando Catatau faz hoje. Grandes nomes do instrumento em suasgerações, eles falam aqui de como chegaram lá

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

"ELE CONSEGUIU IMPRIMIR UMA MARCA, UM ESTILO"

São quase dez anos de diferença de idade, mas Edgard Scandurra vê semelhanças entre o caminho que percorreu e o que Fernando Catatau vem trilhando. Principalmente no que diz respeito ao movimento de abrir mão do comodismo - de seguir estático e acomodado com uma banda fixa - e buscar envolvimento com outros projetos. "Eu me sinto feliz de tocar com a Karina (Buhr), com o Arnaldo (Antunes), de participar de projetos como o Pequeno Cidadão, de ter participado do disco do Cidadão Instigado. É sempre muito enriquecedor. Você sempre aprende muito com outros artistas. Essa é mais uma característica que eu e o Catatau temos em comum", diz Scandurra.

Hoje, aos 48 anos, o guitarrista, cantor e compositor lançou recentemente um DVD comemorando duas décadas de carreira e se envolve em diversos projetos que o satisfazem após a separação do Ira!, em 2007. O último trabalho mais marcante foi o disco Iê Iê Iê, de Arnaldo Antunes, com produção de Catatau, e o DVD do ex-Titã, Ao Vivo Lá Em Casa. Quem assistiu às apresentações da turnê pôde constatar que Scandurra não brilhou apenas no CD e no DVD, mas esmerilhou sua guitarra também em todos os shows.

O caminhão de influências vem de longe. Inspirado por um irmão guitarrista, Edgard começou a tocar violão e guitarraaos 10 anos. Autodidata, foi logo fuçar e descobrir os acordes e, aos 15, já "chamava a atenção da moçada", com sua canhota e o braço do instrumento invertido. "Em meados dos anos 60, a molecada começava a reconhecer a presença da guitarra na música, mas para mim já era uma realidade fazia muito tempo", diz o guitarrista.

Tudo porque Scandurra já escutava desde pequeno os absurdos em discos revelados por Jimi Hendrix, Led Zeppelin, com Jimmy Page, e uma infinidade de outras bandas e instrumentistas estrangeiros que mudaram a história do rock.

No Brasil, o choque chegou na adolescência, quando ele viu pela primeira vez Pepeu Gomes ao vivo. "Um pouquinho antes dele teve também o Sérgio Dias, dos Mutantes, outra grande influência, mas ver o Pepeu ao vivo foi algo muito impressionante. O que tem de Pepeu no meu estilo é a influência dos mesmos ídolos, como o Hendrix. Depois, com o passar do tempo veio o punk rock e uma desconstrução do solo, do virtuosismo. O último grande nome que apareceu com uma pegada original, mesmo sem ser com aqueles solos, com aquela técnica, foi o Kurt Cobain, do Nirvana", comenta Scandurra.

Nos anos 90, ele mergulhou de cabeça na música eletrônica, com seu projeto Benzina, que até teve temas tocados por sua atual banda e pelo Cidadão Instigado nesta turnê, passando por Caxias do Sul, Joinville, Campina Grande e Caruaru.

Em 2009, Edgard foi convidado a participar de UHUUU!, terceiro álbum do Cidadão, estreitando laços com Catatau. "Ele conseguiu imprimir uma marca. É daqueles que, com dois, três acordes, você já identifica e sabe que é ele que está tocando. Acho que a gente tem muita coisa em comum. Ele tem originalidade e personalidade. Assim como o Régis (Damasceno, do Cidadão) também é um grande guitarrista. Temos estilos diferentes. Ele consegue tirar um som mais cru do instrumento."

"A PEGADA É DIFERENTE, MAS O FEELING É O MESMO"

Os mananciais de influência são basicamente os mesmos e, depois da aproximação e da admiração mútua, Catatau e Scandurra têm pontos em comum, mas, em pelo menos um, diferenciam-se bastante. Ao passo que o guitarrista sempre lembrado pelo marcante trabalho no Ira! tem um desapego descomunal de seus instrumentos, o frontman do Cidadão Instigado é aficionado na busca por guitarras e equipamentos raros e antigos.

Com certa frequência, ele e o amigo Yuri Kalil entram em sites para garimpar amplificadores, aparelhos analógicos de gravação e, obviamente, instrumentos. "Eu devo ter umas nove guitarras, mas não tenho esse apego, já que aprendi a me virar com meus instrumentos ruins quando comecei. Duas delas são bem antigas, uma Giannini Supersonic, de 1966, com a qual gravei a introdução de Núcleo Base, no Ira!, em 85, e uma Fender Stratocaster, modelo Eric Clapton, de 88. Já cheguei até a comprar uma Epiphone do Catatau. Tenho um certo desprendimento, já vendi instrumentos raros que tinha em casa quando precisava de dinheiro e já quebrei algumas guitarras em shows e não me arrependi depois", diz Scandurra.

Diferente deste aspecto, outro ponto que aproxima os dois guitarristas é o envolvimento nos mesmos projetos. Catatau também toca com Karina Buhr, produziu e participou tocando no álbum de Arnaldo Antunes, na faixa Invejoso, além de deixar a marca de sua guitarra em trabalhos de Céu, Cibelle e Otto.

"A gente se assemelha, pensa parecido e tem ficado mais próximo ultimamente. A gente tem uma pegada bem diferente pra tocar, mas o feeling é o mesmo. Ele é um dos melhores guitarristas do Brasil. Só por ser canhoto já tem uma sonoridade diferente. Ele é mais do rock, é dos que eu mais gosto entre os brasileiros. O Scandurra me influenciou muito, ele e todos esses ídolos, como o Arnaldo. Eu sempre ouvia Ira!, mas conhecer o cara pessoalmente e tocar junto, ao vivo, é diferente, a proximidade é outra coisa", diz Catatau.

Para o show de quinta-feira, no Estúdio Emme, o Cidadão Instigado deve tocar primeiro e depois Scandurra deve atacar com sua banda, formada por Daniel Scandurra (baixo), Felipe Maia (bateria) e Dustan (teclado). No fim da apresentação, como já ocorreu nos outro quatro shows da turnê - conquistada em edital do Natura Musical, felizmente levando também os artistas sem ser para as manjadas grandes capitais -, os dois devem tocar algum número juntos. Tudo coisa pra se decidir na hora, sem combinar previamente.

A união da inventividade dos timbres e das composições de Catatau com a qualidade dos competentes integrantes da banda, fizeram com que 2010 fosse o ano do Cidadão Instigado. Oito anos depois de O Ciclo da Decadência (2002) e de um EP lançado em 1994, o grupo de Fortaleza firmou-se de vez com UHUUU!. É esperar que em 2011 Catatau se debruce em outros projetos e que o Cidadão continue a surpreender. / L.N.

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