Guimarães Rosa: o alto custo de seu legado

Adaptar João Guimarães Rosa não é fácil. E a culpa não repousa, unicamente, sobre sua linguagem peculiar. Conseguir a cessão dos direitos de sua obra pode se revelar tarefa bastante penosa - e até inexeqüível. Que o digam Rosana Capelari e Ítalo Moriconi, que não chegaram a acordo nenhum com os herdeiros de Rosa. O impedimento? Dinheiro.Rosana é funcionária do Teatro Imprensa. Ela afirma que a família do escritor queria cobrar US$ 20 mil por cada conto de Primeiras Estórias para que pudessem ser encenados no teatro. O professor Moriconi, que em vão tentou incluir algum texto de Rosa em sua antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século 20, disse que não fez parte da negociação entre sua editora e os herdeiros de Rosa, mas lembra que à época se falou que o motivo de não publicar os contos também era o preço.Uma fonte da produção do filme Outras Estórias, dirigido por Pedro Bial em 1999 e baseado em Primeiras Estórias, confirmou que os herdeiros de Guimarães Rosa pediram valores altos para ceder os direitos. Segundo a fonte, cerca de 5% do orçamento integral do filme foi utilizado para pagar a família de Rosa. Pedro Bial, à época do lançamento do filme, declarou que o filme custou R$ 2 milhões. Se assim foi, cerca de R$ 100 mil foram pagos aos herdeiros do escritor.Nas duas tentativas mal sucedidas de usar textos de Guimarães Rosa, o prejuízo é evidente. A proposta da antologia de Moriconi é arranhada pela ausência de Rosa. Já o Teatro Imprensa fez uma pesquisa com professores de literatura e português de cerca de 70 escolas públicas e particulares de São Paulo. "Perguntamos a eles qual livro da literatura brasileira seria o melhor para um projeto de teatro dirigido ao público adolescente", diz Rosana Capelari. "Metade deles escolheu Primeiras Estórias, mas pagar US$ 20 mil por conto tornaria o projeto inviável, pois queríamos usar 10 dos 22 contos do livro"."De graça" - O legado de Guimarães Rosa está dividido entre suas duas filhas, Agnes e Wilma, e Eduardo Carvalho Tessi, que administra o romance Grande Sertão: Veredas para a segunda mulher do escritor. Agnes Guimarães Rosa foi procurada pela reportagem, mas negou-se a falar de valores. Disse que "a maioria quer de graça", referindo-se aos produtores culturais que a procuram através da editora Nova Fronteira. Perguntada se ela considerava alto o valor dos direitos de uso da obra de seu pai, limitou-se a dizer que "Guimarães Rosa é Guimarães Rosa". A editora Nova Fronteira também se esquivou de declarar valores. "Não existe um valor médio em reais ou dólares", disse Carlos Barbosa, gerente de direitos autorais da editora. Segundo ele, as propostas são avaliadas pela família caso a caso, e o preço varia de acordo com a obra escolhida, o tempo pedido para usar o texto e que trabalho será feito com ele.Rosana Capelari e Ítalo Moriconi expressaram a mesma insatisfação com a impossibilidade de usar textos de Guimarães Rosa em seus trabalhos. "O elenco e a direção da peça ficaram apaixonados por Primeiras Estórias, acho que qualquer pessoa que goste de literatura considera isso uma perda", disse Rosana.Ela diz que o segundo colocado na consulta feita com professores está recebendo bom público desde a estréia. É A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. "A família de Clarice foi muito receptiva e não exigiu contrapartidas financeiras". A antologia de contos de Moriconi teve poucas dificuldades para usar textos de outros autores, como Graciliano Ramos e Rubem Braga."Fiz questão de não ser informado sobre estes detalhes, mas na época falou-se que a família havia pedido um valor muito alto", disse Moriconi, justificando a ausência de Rosa em sua antologia. Quanto cobrar pela cessão de direitos sobre a obra de Guimarães Rosa é, por lei, uma decisão dos herdeiros da obra.

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