Guia para orientar leitores no beco escuro da autoria

Onze personalidades, entre escritores e críticos, montam seleções individuais com onze indicações de livros para não deixar de ler em 2011. Ao favorito de cada lista, a análise dos aspectos que fazem de uma obra leitura imprescindível

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

O que torna um escritor canônico? O crítico e ensaísta norte-americano Harold Bloom tentou esboçar uma resposta a essa questão em seu polêmico livro O Cânone Universal (Editora Objetiva, tradução de Marcos Santarrita, 1995): seria um tipo de originalidade difícil de ser assimilada ou que nos assimila de tal modo que deixamos de vê-la como estranha. Shakespeare, segundo Bloom, seria a exceção. "Ele dá a impressão oposta, de deixar-nos à vontade lá fora, estrangeiros, no exterior", observa. Curiosamente, Shakespeare não aparece em nenhuma das 11 listas canônicas dos 11 escritores e críticos de língua portuguesa convidados pelo Sabático para apontar os 11 livros que não devem deixar de ser lidos neste ano que começa. Por outro lado, Shakespeare encabeça uma lista paralela fornecida pelo escritor e filósofo inglês Roger Scruton, de quem a É Realizações acaba de publicar Coração Devotado à Morte, estudo fundamental sobre o papel do sexo e do sagrado na ópera Tristão e Isolda, de Wagner.

No entanto, o livro preferido de Scruton, Madame Bovary, foi escrito por um francês, Flaubert, este sim citado duas vezes na lista canônica do Sabático (com seus livros A Educação Sentimental e Bouvard e Pécuchet). Também citados duas vezes foram William Faulkner, Walt Whitman, Machado de Assis e Clarice Lispector. Mais de três vezes só foram mencionados os nomes de Kafka, Edgar Allan Poe, Borges e Guimarães Rosa.

E o que isso, afinal, significa? A escolha não é tão arbitrária quanto sugere a ausência de Shakespeare na lista. Até mesmo o crítico canônico por excelência, o poeta, ensaísta, biógrafo e moralista inglês Samuel Johnson (1709- 1784), guru extemporâneo de Bloom, tinha dúvidas sobre o bardo. Johnson considerava o poeta e dramaturgo neoclássico inglês William Congreve (1670-1729) superior a Shakespeare. Johnson era um anglicano conservador. Talvez preferisse as comédias licenciosas de Congreve às reflexões filosóficas de Shakespeare por alguma razão, mas não há como explicar sua miopia a respeito de Laurence Sterne, por exemplo - ele escreveu que o seu Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy não duraria; o livro virou um clássico.

Os cânones são assim mesmo, "desconstrutíveis", como disse o crítico literário inglês Frank Kermode, morto em agosto. Eles são "instrumentos de sobrevivência feitos para resistir ao tempo, não à razão", definiu Kermode. Bloom, por sua vez, adora derrubar listas de acadêmicos e jornalistas representantes do que ele chamou de "escola do ressentimento", sempre prontos a promover supostos programas de transformação social. O que Bloom quer dizer é que não se compara Elizabeth Bishop (1911- 1979) a Adrienne Rich apenas por dividirem a cama com mulheres, e sim por serem boas poetas. O teste da nova canonicidade, segundo Bloom, passa por aí.

Nos EUA, por exemplo, é comum a lista canônica dos acadêmicos conceder atenção especial à política de cotas por minorias (sexuais, religiosas, políticas). "A ideologia desempenha um papel considerável na formação de um cânone literário", acentua Bloom, dividindo em seis ramos sua "escola do ressentimento", que confundiria posição estética com ideológica: feministas, marxistas, lacanianos, neo-historicistas, desconstrucionistas e semióticos. Bloom não acredita no estudo literário como uma "franca cruzada" pela transformação social. O cânone literário ocidental deveria rejeitar Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) por ser antissemita? Bloom, judeu educado em iídiche mesmo antes de aprender inglês, acha que não. Tanto que Viagem ao Fim da Noite (1934) aparece em sua lista canônica - e na da escritora Carol Bensimon - como a obra fundamental de um dos autores franceses mais influentes de todos os tempos.

Os bons escritores, defende Bloom, têm consciência da autossuficiência. Milton escreveu O Paraíso Perdido não para um leitor em particular, mas para satisfazer a si mesmo. Seu poema, defende, é mais que um épico bíblico. É uma fantasia literária precursora da ficção científica. Bloom, como se atesta, é um crítico solitário em sua defesa da autonomia do estético. Flaubert podia até ser considerado um "clássico socialista" pelo crítico norte-americano Edmund Wilson (1895-1972), mas não estava a serviço de ideologias, e sim da literatura.

O cânone ocidental do americano Bloom é assumidamente conservador. Adota a divisão postulada pelo filósofo italiano Giambattista Vico (1668-1744), crítico do racionalismo moderno e defensor da Antiguidade clássica, que identificou um ciclo de três fases na humanidade: a teocrática, a aristocrática e a democrática (aquela que vivemos, marcada pelo espírito de Beckett). Depois dela virá o caos e uma nova era teocrática, profetizou Vico. Demos voltas e mais voltas e acabamos no mesmo lugar. Beckett estaria certo? Impossível saber. Mas é possível ficar menos ignorante lendo seu Fim de Partida, que o novo talento da literatura mineira, Carlos de Brito e Mello, autor do elogiado A Passagem Tensa dos Corpos, recomenda em sua lista de leituras para este ano.

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