Guia para entender o panteísmo dos turcos

O que o Nuri Bilge Ceylan de Climas e Um Doce Olhar têm em comum

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

Há um mistério do cinema turco que propõe uma espécie de desafio ao cinéfilo. Basta comparar Um Doce Olhar, de Semih Kaplanoglu, e Climas, de Nuri Bilge Ceylan. O primeiro, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em fevereiro, já saiu de cartaz, após uma permanência que não foi tão bem-sucedida em salas especiais da cidade. O segundo está sendo lançado em DVD. Ambos investem no que se pode chamar de panteísmo - lírico, no caso do primeiro, borrascoso no segundo.

Um Doce Olhar encerra uma trilogia do seu diretor, que acompanha o mesmo personagem de trás para a frente, da idade adulta, no primeiro filme, à infância, no último. Este pode ser visto como um sonho do menino - e é significativo que, numa cena, o garoto queira contar um sonho ao pai e ele lhe responda que não o conte em voz alta. Que o sussurre em seu ouvido - o que o garoto faz. É uma das grandes cenas do cinema em 2010. Encerra um paradoxo, porque é também uma das mais íntimas. Um Doce Olhar passa-se em boa parte na floresta em que Yusuf procura o pai. O local é mágico e misterioso.

O céu de Climas traz um presságio de tempestade. É como se a própria natureza participasse da desintegração do casamento de Isa e Bahar. Isa, interpretado pelo próprio diretor (e roteirista), é professor universitário. Ele trata os alunos com o mesmo desinteresse que reserva à mulher, em casa. Não é bem desinteresse - é mais uma falta de sintonia, como se Isa não estivesse conseguindo se comunicar com uns e outra. Bahar trabalha numa emissora de TV. Quando a mulher anuncia que quer se separar, Isa toma um choque. Ela vai participar de uma emissão numa região gelada da Turquia. Ele a segue. Os céus que pressagiavam tempestade viram paisagens geladas, como a relação entre ambos.

Isa possui o típico comportamento masculino - o sentimento de posse. Ele nunca se preocupou em manifestar seus sentimentos para Bahar, mas, à simples menção de perdê-la, o marido reage como se estivesse perdendo algo muito valioso. Mas ele já havia perdido antes, e nada fez para impedir que isso ocorresse. Bahar é interpretada por Ebru Ceylan. É a mulher do próprio diretor. Em Cannes, quando o filme concorreu à Palma de Ouro (em 2006), ambos deram muitas entrevistas para explicar não apenas o método de trabalho de Nuri Bilge, mas como é essa história de exorcizar na tela uma crise de sentimentos que ambos afirmavam não experimentar na vida.

Sem querer ser invasivo da privacidade de ninguém, é curioso lembrar que, no Brasil, num projeto autobiográfico, Hector Babenco matou a mulher na ficção - Coração Iluminado - e o casamento com Xuxa Lopes terminou logo depois. Nuri Bilge Ceylan disse que não teve medo de falar sobre afeto porque, além de o filme ser uma obra fictícia, a ligação com Ebru era sólida. O lançamento em DVD não possui muitos extras - tem o trailer e os próximos lançamentos da distribuidora Imovision. Seria interessante se incluísse uma notícia crítica sobre o cinema turco, ou sobre o diretor. Walter Salles, que, além de autor, é cinéfilo, tem grande apreço pelo cinema de Ceylan.

Em condições políticas adversas, o cinema turco foi contemplado com a Palma de Ouro, em Cannes, e quando isso ocorreu - no ano de Yol, em 1982 -, o diretor Yilmaz Guney estava preso, condenado por suas ideias. O próprio filme foi realizado por um assistente, segundo suas indicações. O prestígio do prêmio criou um clamor pela libertação do cineasta e Guney morreu de câncer, no exílio, na França, dois anos mais tarde. O impacto sobre o cinema turco foi enorme. Estimulou a geração de Nuri Bilge Ceylan, que hoje faz um cinema autoral e crítico sobre a Turquia.

CLIMAS

Turquia/França, 2006. Direção e interpretação de Nuri Bilge Ceylan. Distribuição: Imovision.

R$ 29,90

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