Guggenheim: animação brasileira à prova

A empolgação brasileira com a instalação de um museu Guggenheim no Rio de Janeiro, a partir do próximo ano, agradou Thomas Krens, presidente da Fundação Guggenheim de Nova York, mas não é suficiente. Aclamado e ao mesmo tempo criticado por defender uma visão mercantilista dos museus de arte (compara-os a parques temáticos), Krens alertou que somente um consenso entre os governos municipal, estadual e federal, além da generosa adesão de empresários, permitirão à fundação a instalação do primeiro museu Guggenheim da América Latina - e o quarto fora do território norte-americano (Bilbao, Veneza e Berlim já dispõem de uma sede cada)."Até o momento, percebi a existência de uma grande mobilização, o que me agrada", comentou Krens, hoje de manhã, antes de iniciar uma visita a cinco pontos da orla marítima do Rio. "Sou cético, porém, pois já recebemos pedidos de mais de 60 cidades no mundo para construir uma filial e a maioria deles não se revelou realista: os recursos não eram adequados." Por isso, ele buscou decifrar a veracidade das intenções do governador Anthony Garotinho e do prefeito Luiz Paulo Conde, em um encontro ocorrido nesta quinta-feira. Fez o mesmo com o prefeito eleito César Maia, com quem tomou café-da-manhã hoje.Formado em administração em Yale, Krens utilizou expressões econômicas para transmitir seus recados. Não escondeu sua preferência pela área do Forte de Copacabana, por exemplo, que classificou como de uma "beleza impressionante". Mas levantou uma questão: será que o sistema de transporte permitirá o fluxo de dois milhões de pessoas por ano ao local? Em outra divagação, Krens também questionou a real necessidade de a região receber um museu cuja arquitetura não pode ser ofuscada. "Não queremos apenas colocar mais uma jóia em um local já naturalmente esplendoroso", ressaltou.Marca Guggenheim - Assim, acompanhado do arquiteto Frank Gehry (autor do aclamado museu de titânio em redemoinho de Bilbao, na Espanha), Krens visitou, à tarde, o cais do porto, as áreas próximas ao Museu de Arte Moderna e ao Aeroporto Santos Dumont, a marina da Glória e o próprio Forte de Copacabana. Em todos os lugares, os dois buscaram o espaço ideal para instalar o que consideram "a idéia da marca Guggenheim". "Espero repetir aqui o mesmo milagre acontecido em Bilbao", contou Gehry. "Lá, os bascos acabaram aceitando o museu como sua propriedade e o incluíram entre suas opções de lazer."Gehry é especialmente crítico em relação à aceitação do museu pela população. Lembrou que os governantes espanhóis ofereceram inicialmente um local considerado muito convencional. "Ali não era um ponto tão magnético como o que encontramos depois, próximo a uma ponte antiga; a aceitação pública provou que estávamos certos." Na busca pelo apoio popular, o arquiteto deverá contar com o trabalho de colegas brasileiros na elaboração do projeto - teve um encontro ontem com Ruy Othake e janta hoje com Oscar Niemeyer. "Normalmente, é complicado dividir o trabalho com outros arquitetos, mas não dispenso as opiniões de quem conhece bem os problemas de seu povo."A disposição em manter um contato mais próximo com a cultura latino-americana ("É o momento de trabalhar no Hemisfério Sul, pois, até agora, a Fundação Guggenheim atuou apenas no sentido leste-oeste") conveceu Thomas Krens a apostar na construção do museu brasileiro, que vai depender de um estudo de viabilidade iniciado hoje. Durante seis meses, serão avaliados os impactos culturais, econômicos e comerciais da filial no Brasil. O estudo vai analisar também as possibilidades de Curitiba, Salvador e Recife, cidades que serão visitadas neste fim de semana, em receber um Guggenheim."O estudo consumirá entre 5 e 7 milhões de dólares para ser executado", comentou Humberto Mota, diretor-executivo do projeto Guggenheim Brasil, que vai viabilizar a averiguação. A captação de recursos estrangeiros para investimento em cultura no País motivou a criação do Brazil US Council, projeto a ser lançado quarta-feira, em Nova York, e que, seguindo as leis americanas, pretende atrair apoio de empresas que tenham filial no Brasil. "A General Motors ou a Coca-Cola, por exemplo, podem aplicar parte de seus lucros no museu", comenta Mota, entusiasmado a ponto de até revelar qual será a provável exposição inaugural da filial brasileira: mostra do acervo expressionista do State Hermitage da Rússia, museu que mantém acordo de partilha de coleções com a Fundação Guggenheim.

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