Gueto das artes: mostra expõe trabalhos de Terezín

O Museu da República inaugura nesta quinta-feira a exposição Desenhos das Crianças de Terezín. Depois de passar por Brasília, a mostra com 40 reproduções de painéis fica no Rio até 27 de agosto e, em outubro, segue para São Paulo. Os originais, um total de cem, são parte do acervo do Museu Judeu de Praga, um dos principais centros da cultura hebraica, e não saem de lá. As cópias que estão no Brasil, porém, já viajaram por toda Europa e América Latina.Terezín é uma cidade pequena, localizada na República Checa, onde em 1941 o Teceiro Reich construiu o gueto de Theresienstadt para confinar os judeus checos. Terezín se tornou um campo de trânsito, colônia onde milhares de judeus esperavam sua tranferência para campos de concentração como Sobibor, Auschwitz ou Treblinka.Talvez por uma coincidência, vários dos maiores talentos artísticos da Europa foram presos neste gueto. Músicos, teatrólogos, escritores e pintores judeus estiveram entre os 140 mil prisioneiros de Terezín. Uma atividade cultural intensa floresceu no campo, o que fazia de Terezín um gueto diferente. Mas apenas em parte.Os oficiais nazistas permitiram aos judeus de Terezín certa liberdade artística com a única intenção de fazer propaganda dos campos de concentração. Os teatros de cabaré, as óperas e os concertos que os prisioneiros organizavam com os recursos de que dispunham eram mostrados às missões da Cruz Vermelha como um benefício dado aos presos. Até um filme foi rodado em Terezín, com cenários manipulados, para consolidar a imagem de um "gueto paraíso". A liberdade de criação dentro dos limites do gueto não significou, contudo, menor controle nazista: 33 mil pessoas morreram em Terezín, enquanto das 87 mil levadas a outros campos, apenas 5% sobreviveram.Mas talvez para as 93 crianças sobreviventes, das 15 mil presas em Terezín, tenham sido fundamentais as aulas de desenho que receberam. Assim como os adultos, a população infantil soube usar a arte como forma de libertação. Os pequenos painéis encontrados no gueto depois da guerra são um retrato de pessoas violentadas, perturbadas com o fato de não terem mais a sua vida normal. Muitos deles trazem referências de ataque ou ameaça. Mas alguns também ilustram momentos de sonho, coloridos e fantasiosos.Já a produção literária, quase toda encontrada em revistas publicadas no gueto, expressa mágoa e sofrimento permanentes, com imagens de escuridão e silêncio em versos como: "a beleza do ar, que dia após dia/cheira estranho e carbônico/enfermeiras que trazem os termômetros/mas que se perdem de trás de um sorriso/a comida é um luxo aqui/a noite é muito longa e o dia é curto" (autor desconhecido). Em todos os exemplos, no entanto, fica evidente a alta qualidade artística dos trabalhos.Desenho das Crianças de Terezín - Museu da República, Rua do Catete, 153, tel.: 558-6350. De 3 a 27 de agosto. Grátis às quartas-feiras. Nos outros dias, ingresso a R$ 5.

Agencia Estado,

01 de agosto de 2000 | 15h09

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