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Guerrilheiros ou etnólogos?

Cada um levava, além de um revólver, uma espingarda, que, com as botas, formavam nossa fantasia

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2022 | 03h00

Somos criados para “viver a vida”, mas, quando a vida nos vive, ela nos surpreende. Os acidentes, frustrações, fracassos, sucessos e morte chocam, porque descobrimos que a vida pouco condiz com nossos desejos e planos.

Freud chama isso de “princípio de realidade”, porque o real ultrapassa nossas fantasias, mostrando que o mundo não se revela em sincronia conosco. E, no entanto, sem isso, não teríamos singularidade. Seríamos tão vazios e misteriosos quanto as nebulosas. Pois o mundo só se torna interessante quando se transforma em alguma coisa que tem início, meio, fim. É a distinção que nos torna o que somos e constrói as histórias que nos fazem. É a vida vivida em nós que nos tira do nada. 

Quando a experiência religiosa perdeu força, agarrei-me aos livros. E os livros são, até hoje, meus pais, irmãos e filhos, pois fui capaz de produzir alguns desses estranhos objetos abençoados que, como o passado e os mortos, revelam o quanto não sabemos quando os abrimos, violando suas intimidades e, sem permissão, lendo suas narrativas, ouvindo suas vozes, cânticos e lamentos. 

OS LIVROS, OBJETOS ABENÇOADOS

É quando encontramos suas almas e, quem sabe, o seu coração que, em certas ocasiões bate com o nosso...

Os livros me credenciaram aos papéis de professor e de antropólogo social. E com esse encargo completei meu projeto de estar dentro e fora do meu próprio mundo.Vivi a experiência do mais franco estranhamento e imitando, sem saber, profetas e ascetas.

NA FLORESTA 

Mas para isso era preciso realizar uma “pesquisa de campo” adjetivo antropológico utópico de viver com os nativos e aprender sua vida de modo direto. 

No caso, entrar na Floresta Amazônica, no Sul do Pará, e enfrentar o seu simbolismo de perigo e doenças, desconhecimento, ausência de mapas e tecnologia – corria o ano de 1961.

Resultado: quando meu companheiro Roque Laraia e eu nos encontramos para sairmos de Marabá para iniciar nosso trabalho e nos vimos frente à frente, verificamos como a fantasia de nossas sociedades nos havia envolvido, pois cada um de nós levava, além de um revólver, uma espingarda, que, com as botas, formavam muito mais a nossa imaginosa fantasia de guerrilheiros do que a de antropólogos.

Quando nos vimos assim fantasiados, rimos e simultaneamente nos perguntamos se éramos guerrilheiros ou etnólogos. Ficamos com nossas canetas e cadernetas de campo e deixamos de lado o peso das armas. 

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