Guerrilheira do sexo

Michel Leclerc e Sara Forestier encontram-se com o repórter do Estado na sede da Unifrance, no bairro de Pigalle, em Paris. Mais que uma entrevista, o clima informal sugere uma conversa - sobre Les Noms des Gens. O filme estreia rebatizado como Os Nomes do Amor. Depois de abrir a mostra Semana da Crítica, no Festival de Cannes do ano passado, Os Nomes do Amor ganhou este ano dois dos mais importantes prêmios César - o Oscar francês. Melhor roteiro, justamente para Leclerc, e melhor atriz, Sara.

O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2011 | 03h06

O filme é insólito, para se dizer o mínimo. Retoma a vertente política pela via comportamental. Isso já lhe garante a originalidade, pelo menos. Não apenas - Leclerc, como diretor, serve aos diálogos espertos, que escreveu. O elenco ajuda. Sara, claro, mas também Jacques Gamblin. O resultado é divertido. Faz pensar.

Filha de uma ex-hippie e de um imigrante argelino, Sara faz de sua via a concretização de um velho slogan dos anos 1960 - faça amor, não faça guerra. Ela usa o sexo de forma subversiva, para converter seus oponentes políticos. Como eles são numerosos, a personagem tem, por assim dizer, uma vida sexual muito ativa. Até que encontra seu oponente perfeito, Jacques Gamblin.

Leclerc tem consciência de que, no mundo atual, todo mundo - e os jovens - são estimulados a competir entre si ou a se isolar nos seus computadores. "Nunca tivemos tanta informação e nunca fomos tão alienados. Não é culpa da garotada, mas me interessava discutir a participação, o engajamento. O que é mais importante - ser único ou mais um na multidão? Devemos aceitar o mundo como é ou tentar transformá-lo? Pode-se dizer que meu filme tem a nostalgia de Maio de 68, mas adequada aos novos tempos."

Uma coisa provocou muitas críticas, justamente na internet. Sara, no filme, chama-se Bahia e, embora o nome seja comum no mundo árabe, o diálogo fica fazendo referências ao Brasil. Sara achou divertido. Ela foi atriz de Abdellatif Kechiche em L'Esquive, de 2003. Fazia a garota que participava de uma montagem escolar com seus colegas do Magreb. Sara define Kechiche como o maior talento da nova geração francesa. Tem verdadeira devoção por ele. "Abdel subverte os conceitos que você pode ter sobre como se faz cinema. Ele trabalha a linguagem oral. Cria um clima quase místico no set. Com ele, você repete a cena cem vezes, até achar o tom exato que Abdel quer."

Com Michel Leclerc, o jogo foi diferente. "Michel busca exatamente o oposto, a espontaneidade. Para o ator, são duas escolas e o importante é que ambas funcionam. Podem-se fazer grandes filmes, de um jeito ou de outro." Quem é Bahia para ela? "É alguém que parece muito autoconfiante, mas que, colocada em xeque, tem de reavaliar a própria identidade e a persona que criou para si mesma." Leclerc é uma raridade - um diretor que integra uma banda. "Como ele tem um ouvido especial para a música, Michel também aposta na musicalidade dos diálogos. Para os atores, é bom."

Tão importante é a música para o diretor que Leclerc encomendou uma partitura especial para o compositor Jérôme Bensoussan. "Numa comédia, a música não precisa sublinhar nem destacar a ação. Eu queria que, mesmo nas cenas mais eufóricas, o tom fosse melancólico, lírico. Propus a Jérôme que usasse a flauta, em vez do clarinete, que costuma aparecer mais em suas criações." Como o próprio filme, a trilha passa do riso à emoção evitando o pathos - um exemplo é a cena da morte da mãe. "Nosso modelo foi Georges Delerue e a trilha de La Peau Douce, Um Só Pecado (de François Truffaut)", ele explica. / L.C.M.

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