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Guerrilha erótica

Deixei aqui, na semana passada, a promessa - ou ameaça, entenda como quiser - de contar mais um lance de minha experiência no ramo da mulher pelada. Experiência jornalística, por favor. Na fala engomada de tantos de nossos compatriotas: aqui estou enquanto jornalista, não a nível de ser humano.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2014 | 02h09

A estreia, já foi dito, deu-se nas páginas da Status, revista que, mais de trinta anos atrás, vivia a sua primeira encarnação. Lá aprendi, de saída, que o leitor (ou, dada a natureza da publicação, o "vedor") se sente gratificado quando, em vez de simplesmente povoar as páginas com prendas corporais femininas, o editor as faz desfilar na esteira cada vez mais escaldante de uma historinha.

O que requer cuidado. Certa vez um ensaio da Playboy pôs em cena, saltitantes numa cama elástica em praça pública, uma garota e um camarada. Pulavam e aos poucos se desnudavam, aos olhos de multidão antenada na lubricidade do progressivo despojamento do casal. Como fomos embarcar nessa? A tigrada jamais nos perdoou a intromissão de um macho de sunga em suas fantasias. Nunca se sabe o que pode acontecer.

Mais próxima ainda do desastre - e aqui vai o que ameacei contar - foi, na Status, a historinha protagonizada por uma "guerrilheira" que, encarapitada na sua lasciva Sierra Maestra, por pouco não derrubou os irresponsáveis editores da revista, pois em 1980 vivíamos ainda sob pundonorosa ditadura militar. Continuava ativa e voraz a tesoura da Censura. Mas havia esperanças de que o panorama desanuviasse. Meses antes, viera uma anistia, mesmo que rombuda, capaz de pôr no mesmo saco torturados e torturadores, engendrando com isso um mal estar do qual ainda não nos livramos.

Era inegável, em todo caso, que as coisas melhoravam - e foi num quadro de otimismo que um dia nos apareceu a "guerrilheira".

Acompanhada de uma agente, produtora ou coisa que valha, a moça, alta, vistosa, nos propunha um ensaio fotográfico em que faria o papel de sedutora guerrilheira cujo esconderijo, na mata, é descoberto e invadido pelas forças do governo. Tudo, porém, acabaria da melhor maneira, não só para a bela, que, ao ser presa, lança mão de recursos não exatamente bélicos, como também, supõe-se (fica por conta da imaginação do vedor), para o felizardo soldado que a capturou.

A ideia nos pareceu excelente. Se a anistia trouxera de volta os exilados, por que não podíamos apimentar o erotismo com uma pitada de política? Sem maiores preocupações, fechou-se negócio nos seguintes termos: vocês tocam o projeto e nos trazem, prontinho, o ensaio fotográfico.

O alarme deveria ter soado assim que as fotos chegaram à redação. Além da guerrilheira, as imagens mostravam dois soldados fardados e um jipe em cuja lataria as iniciais EB não deixavam dúvida quanto à procedência. Soldados e equipamento do Exército Brasileiro num ensaio de mulher pelada - como haviam as danadas conseguido aquilo? Simples: uma delas conhecia um oficial suficientemente graduado, o qual, prestimoso, lhes cedeu os praças - armados - e o veículo, além da farda de camuflagem com que se embalou a fogosa guerrilheira.

Nunca mais vi a revista, mas tenho ainda na memória uma cena, creio que a última do ensaio, na qual, rendido por inelutáveis argumentos, o soldadinho encarregado de prender a moça aparece maciamente imprensado por ela contra o jipe verde-oliva.

A farda desabou e faz um volume fofo aos pés da guerrilheira, cujo corpo desnudo se gruda ao do moço, o qual, convenientemente, permanece vestido. Semiencoberto pela criatura que lhe dá um nada regimental amasso, boia em seu rosto um olho esbugalhado.

Sabe Deus, sabe o Diabo o que lhe passa pela cabeça. No mínimo, terá aprendido outro sentido da palavra continência. Amestrado para cumprir ordens, dessa vez um superior o incumbira, não de varrer um chão ou engraxar umas botas, mas de acompanhar no mato, na moita, duas moças bonitas, uma das quais resultou ser labareda humana em forma de gente.

Vontade de saber o que aconteceu ao rapaz, hoje cinquentão, a partir daquela missão que, a julgar pela foto, terá bagunçado sua vida civil, militar e qual mais haja. Algo me diz que, três décadas depois, o olho segue esbugalhado.

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