Guerreira, Gal vence suas 'ites'

Foi uma noite antológica, dessas que não se repetem. Gal Costa estreou Recanto em São Paulo anteontem lutando contra faringite, laringite e "outras ites", como ela mesma disse. O início foi tenso. A rouquidão e as consequentes oscilações de entonação e afinação pareciam ter dado nos nervos de Caetano Veloso, diretor do show e autor de todas as canções do novo álbum (a própria cantora brincou com isso), presente na primeira fila.

O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h08

Entre antigas (Da Maior Importância, Divino, Maravilhoso) e novidades (Tudo Dói, Recanto Escuro), o problema persistia e inquietava quem estava no palco e na plateia. Até que Gal assumiu não estar bem e todos relaxaram. Porém, não pediu desculpas pelas derrapadas em Divino, Maravilhoso (Caetano/Gil). Foi "guerreira" - como disse para ela nos bastidores antes do bis o baterista Domenico Lancellotti, um dos três músicos que a acompanhavam - e cumpriu a determinação de "fazer um show bonito", superando as expectativas.

Em Folhetim (Chico Buarque) pediu ajuda do público nos momentos de maior agudez, no que foi prontamente atendida. "Vocês não estão roucos." Em seguida vieram Mãe, Segunda e Minha Voz, Minha Vida. Num roteiro impecável com tantas canções em tons elevados e letras sobre o ato de cantar e a voz do cantor (no caso, as que Caetano fez pensando na dela), era crucial que seu instrumento estivesse afinado.

E Gal foi superando cada obstáculo com tamanha força, altivez, profissionalismo e emoção que deixava perplexa e eufórica a plateia (sempre torcendo pela compensação do esforço dela) a cada momento vitorioso em que conseguia manter os agudos. O grande desafio vencido foi em Autotune Autoerótico, ponto alto do show, que fez o público urrar e aplaudir em pé. Testemunhas de que, sim, ela pode: mesmo rouca, eis a grande cantora de volta.

Como essa e Segunda, as canções do novo álbum crescem ao vivo. "As cordas vocais estão me obedecendo mais agora", disse ela entre Cara do Mundo e Deus é o Amor (Jorge Ben), já mais aquecida. Clássicos de Caetano rearranjados - O Amor (sobre poema de Maiakovski) e Baby, conduzidas pela sonoridade do violão - e Vapor Barato (Jards Macalé/Waly Salomão) em matadora versão comovem às lágrimas.

Sorrisos de satisfação brotam quando ela alterna os tons na bem-humorada interpretação de Um Dia de Domingo (Sullivan/Massadas), quando imita a voz de Tim Maia, que fez dueto com ela na gravação original.

Outras canções referenciais da longa relação dela com Caetano, Força Estranha e Meu Bem, Meu Mal - "desde o início estava você", canta ela e joga beijos e sorriso para seu tenso "guru/ porto seguro" - encerram o show em alta. As imperfeições técnicas ocasionais daquela voz tamanha foram compensadas pelo potencial humano, com a cumplicidade de músicos e fãs. Nada melhor para contradizer quem afirmou ser o CD frio porque eletrônico.

Crítica

Lauro Lisboa Garcia

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

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