Vidal Cavalcante/AE
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Guerra e paz na história africana

Mayombe e 'A Geração da Utopia', do angolano Pepetela, radiografam os impasses de um país em busca de identidade

Paulo Nogueira,

16 Fevereiro 2013 | 00h42

Pepetela - nom de plume de Artur Pestana dos Santos, de 71 anos - se acotovela com Luandino Vieira e José Eduardo Agualusa no pódio de escritor mais midiático de Angola. Em 1997, conquistou o Prêmio Camões, o mais prestigioso do mundo lusófono, que no ano passado contemplou o curitibano Dalton Trevisan.

O desafio de Pepetela e de seus pares é o mesmo: engendrar literariamente a identidade nacional do jovem Estado africano, independente de Portugal há somente 38 anos. Uma missão igual àquela que inspirou o movimento romântico brasileiro, depois do grito do Ipiranga. Claro que, em pleno século 21, os contextos são outros - até pelo paradoxo que constitui Angola. Situado em 146.º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, com uma expectativa de vida de 42 anos e uma distribuição de renda tão desigual que faz o Brasil parecer um éden escandinavo, o país é rico em petróleo e diamantes e sua capital, Luanda, desponta como a cidade mais cara do mundo.

Na política, não é diferente: à independência seguiu-se uma sanguinária guerra civil, vencida pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido do atual presidente, José Eduardo dos Santos, no poder há longevos 32 anos. A oposição fala em cleptocracia. Já em 2013, Isabel dos Santos, filha do presidente, se tornou a primeira africana a figurar na lista de bilionários da revista Forbes.

É esse o quadro que Pepetela explora em obras como Mayombe e A Geração da Utopia, que ganham novas edições no Brasil (Leya). Ninguém pode acusá-lo de escrever sobre tais questões apenas por ouvir falar: branco de ascendência portuguesa, o escritor combateu pela independência nas fileiras do MPLA. E, de 1975 a 1982, foi ministro da Educação.

Mayombe e A Geração da Utopia correspondem aos polos mais sugestivos da história recente de Angola. O primeiro dramatiza a luta contra o colonialismo. Da Ilíada a Os Sertões, de Guerra e Paz a Os Nus e Os Mortos, os conflitos bélicos configuram pretextos fecundos para a grande literatura. Pepetela fica à vontade nessa tradição, esquivando-se do proselitismo e esgrimindo um mosaico poliédrico, no qual o destino coletivo e as contingências individuais são dois lados da mesma moeda - que volta e meia cai em pé.

Um dos méritos do autor em Mayombe é realçar, imparcialmente, a pluralidade étnica que povoa o teatro de guerra, confiando as vozes narrativas a um caleidoscópio de personagens. Como assinala um mulato, "da terra recebi a cor escura de café, vinda da minha mãe, misturada ao branco do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, represento o talvez. Talvez não é para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não".

Outro ás na manga de Pepetela é a própria selva, convertida numa espécie de protagonista espectral e insone. Ora benévola, ora vil, às vezes antropomorfizada, ela se transfigura num labirinto simbólico, onde é fácil entrar, mas difícil sair sem se perder para sempre, seja o corpo, seja a alma.

A Geração da Utopia é mais panorâmico. Radiografando três décadas, o romance recapitula a gênese do ethos nacionalista, a guerrilha, a guerra civil e as primícias da paz num país, por fim, soberano. Inopinadamente para a obra de um escritor identificado com os vencedores, a dicção é mais elegíaca que triunfal.

O livro se abre com uma nota espirituosa. "Portanto, só os ciclos são eternos." O autor da frase assume-se como o próprio escritor, repreendido pelo professor da Faculdade de Letras: "De onde é o senhor? De Angola? Logo vi que não sabia falar português; desconhece que a palavra portanto só se utiliza na conclusão de um raciocínio?". E segue: "Daí a raiva do autor que jurou um dia escrever um livro iniciando por essa palavra. Promessa cumprida. E depois deste parêntesis, revelador de saudável rancor de trinta anos, esconde-se definitiva e prudentemente o autor".

Mas aquele solecismo não se reduz ao desmascaramento do ranço colonizador. Foi escolhido a dedo o enunciado de que "só os ciclos são eternos", num romance cuja vocação aparente é a do afresco histórico. Tudo se passa como se a utopia fosse a floresta e os idealistas utópicos, as árvores, tão múltiplas e diferentes entre si que, por vezes, turvam a perspectiva da selva, convertendo-a em miragem ou ilusão. O que sobra é, quando muito, o otimismo da esperança.

Pepetela parece interrogar-se: o que conta mais - a natureza humana e seus atavismos, a natureza histórica e seus devires ou a natureza propriamente dita, enquanto contraponto da cultura? "São todos capazes e honestos, sem exceção. Quando um deixa de ser dirigente, é que se sabe que afinal era um incompetente e um corrupto. A mitologia do poder. Passa-se em qualquer religião ou seita. O chefe da seita é um santo, um desinteressado. Quando cai, descobre-se que era o diabo e tinha uma conta secreta na Suíça. Tudo isso é tão antigo e repete-se sempre em todos os regimes."

Onde Pepetela erra a mão é no sentido alegórico de um polvo, que traumatizou a infância de Arnaldo (o protagonista do romance) e que, na meia-idade, este acabará por pescar - apenas para descobrir que seu leviatã não passava de um molusco banal. Ao contrário das ressonâncias arquetípicas da baleia de Moby Dick ou do peixe de O Velho e O Mar, a imagem tentacular do "polvo" é surrada como avatar da corrupção.

No livro, o angolano professa sua dívida para com a literatura brasileira. Em certa passagem, ele escreve: "Horácio voltou à literatura, aconselhando os outros a lerem Drummond de Andrade, em sua opinião o melhor poeta da língua portuguesa de todos os tempos. Qual Pessoa. Drummond é que era". A medição, claro, não se aplica. Ambos os autores foram mestres na mesma pátria de Pepetela: a língua portuguesa.

PAULO NOGUEIRA, ESCRITOR E JORNALISTA QUE VIVEU OS ÚLTIMOS 25 ANOS EM PORTUGAL, É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM (INTERMEIOS), ENTRE OUTROS LIVROS

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