"Guerra e Paz" de King Vidor chega em DVD

Ele não carregava impunemente aquele ´Rei´ no próprio nome. King Vidor foi um gigante do cinema, um rei na velha Hollywood, que marcou com suas inovações estilísticas e preocupações humanistas e sociais. O rei Vidor morreu em 1982. Quando isso ocorreu, estava inativo havia mais de 20 anos e o último filme - Salomão e a Rainha de Sabá, de 1959 - não tinha sido exatamente um sucesso. Nem o anterior - Guerra e Paz -, feito num ambicioso esquema de co-produção entre EUA e Itália, em 1956. O fracasso de Salomão e a Rainha de Sabá pode ser creditado, em parte, aos problemas que Vidor enfrentou com a morte súbita do ator Tyrone Power, durante a rodagem de uma cena. Ele caiu morto em pleno set. Foi substituído por Yul Brynner, ao cabo de muitos problemas com produtores e seguradores que bateram nos nervos de King Vidor. Não foi por acaso que ele resolveu dar um tempo do cinema e, depois, consolidou o afastamento, nunca mais voltando aos sets de filmagem. Os problemas de Guerra e Paz foram de outra ordem. Elogiado até na União Soviética, o filme foi rejeitado pela crítica americana. Guerra e Paz está agora saindo em DVD pela Paramount, numa edição para colecionadores. Não tem os extras que um lançamento desse porte poderia e até deveria autorizar, mas imagem e som foram remasterizados. É um filme suntuoso para os olhos e que resiste ao olhar mais atento de quem se interessa mais pela intensidade dos conflitos do que por explosões. King Vidor foi acusado de pasteurizar a narrativa poderosa de Leon Tolstoi. Talvez o tenha feito, até porque a complexidade da obra literária - que começa como romance aristocrático, transforma-se em epopéia nacional russa e vira, no último capítulo, um estudo teórico sobre a guerra - seja dessas coisas difíceis, senão impossíveis de formatar, no cinema. Talvez King Vidor tenha filtrado o seu Tolstoi por outro monumento das letras - Stendhal -, mas a obra, de qualquer maneira, possui fôlego e contempla os principais movimentos do livro, especialmente o romance aristocrático e a epopéia nacional russa. Para confirmar a qualidade dessa adaptação de Guerra e Paz bastaria compará-la com a que fez, dez anos mais tarde, o russo Serguei Bondartchuk. O filme russo ganhou o Oscar de produção estrangeira. É um mastodonte de tédio que mataria de aborrecimento o próprio escritor. E Bondartchuk pagava tributo ao realismo socialista - cada vez que os personagens falavam na mãe Rússia soavam sinos da trilha sonora, ouvia-se um coro e o tom tornava-se solene. Claro que para equilibrar um pouco tudo isso havia cenas de batalhas de uma grandiosidade rara. Dois Exércitos, o russo e o de Napoleão, como Bondartchuk colocou em Guerra e Paz, seriam hoje inviáveis pelo custo astronômico. O filme teria de ser resolvido no computador. Justamente a batalha. King Vidor vê a cena pelos olhos do idealista e pacifista Pedro, que atravessa o campo onde se defrontam os dois Exércitos, como o faz Fabricio Del Dongo no clássico stendhaliano, A Cartuxa de Palma. Muito já se falou nessa proximidade entre Tolstoi e Stendhal, com quem o escritor russo compartilha a convicção de que uma batalha tem de ser caótica. Pedro, no filme, é um sonhador interpretado por Henry Fonda. Passeia pelo campo, colhe uma flor. Diante do teatro gigantesco de operações militares que expõe o absurdo da guerra, a flor lhe cai da mão, filmada de um ângulo que o espectador não esquece. E o filme tem Audrey Hepburn como Natasha. É impulsiva como toda heroína do rei Vidor, bastando lembrar as duas que Jennifer Jones criou em Duelo ao Sol e Fúria do Desejo (o sublime Ruby Gentry), de 1946 e 52. Suas escolhas são apaixonadas, mas erradas. Ela sofre e faz com que muita gente sofra. O tema de Vidor é sempre a expiação pelo sofrimento. É um belo filme de um diretor que, na história do cinema, será sempre lembrado pelas obras-primas dos anos 1920 - dois clássicos mudos, The Big Parade, contra a guerra; e The Crowd, sobre o esmagamento do indivíduo na cidade grande: e outros dois já no período sonoro, Hallelujah, sobre a vida das comunidades negras no Sul racista, com fundo de spirituals; e O Pão Nosso, de 1934, sobre desempregados que ocupam uma fazenda e criam um projeto coletivo, uma utopia, no coração da América.

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