Guerra dos sexos na formação nacional

Couro Imperial articula raça, gênero e sexualidade para examinar relações entre império e colônia na África do Sul

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Todos os nacionalismos têm gênero, todos são inventados e todos são perigosos. É dessa maneira polêmica que Anne McClintock, intelectual nascida em Harare (Zimbábue), radicada na África do Sul - onde lutou contra o apartheid - e com várias passagens acadêmicas pela Inglaterra e EUA inicia um de seus capítulos. A intenção é mostrar, aqui e ao longo do livro, como invenção não é, nesse caso, sinônimo de falsidade, assim como investigar de que maneira povos imemoriais realizam construções vigorosas acerca do gênero, da raça, das classes ou mesmo das regiões. Nações e comunidades são imaginadas, e por isso os elementos que a constituem têm significados flutuantes: a circunstância e a relação que estabelecem entre si é que os definem.

Não por acaso o reconhecimento de uma nação repousa quase sempre sobre uma identidade masculina. Já a família e as mulheres, presas ao espaço doméstico, tomam parte das genealogias nacionais sempre a partir de uma operação de subordinação. E o mesmo ocorre com os demais grupos raciais, sobretudo os africanos. As mulheres, tratadas como ociosas e presas ao lar, seriam o lado silencioso dessa engenharia; já os negros compunham o espaço do trabalho e da barbárie.

O argumento leva a indagar, portanto, como se comportam esses elementos considerados periféricos e isolados, mas que no livro Couro Imperial ganham lugar destacado. A obra cobre um longo período temporal (da Inglaterra vitoriana ao contexto político atual), mas se utiliza de uma lente pouco usual para conduzir a narrativa. Exemplos de pessoas que vivenciaram o colonialismo, a exclusão ou a inclusão, e deixaram relatos, diários, romances, desenhos, propagandas, realizam em conjunto retrato pungente sobre as ambivalentes relações que se estabeleciam. Marcadores sociais da diferença, como raça, gênero e classe, são observados não isoladamente, mas tal qual peças de um quebra-cabeça cujo conjunto explica a operacionalidade do sistema, mas também suas ligações perigosas.

Atenta a essas janelas, a autora descreve a desmontagem do Império, tendo como guia situações consideradas degeneradas, periféricas. Usando farta iconografia, Anne vai nos guiando pelos detalhes. Na análise de uma gravura do século 16, mostra a desproporção entre o navegador (homem) que chega portando os emblemas de progresso, e a nativa (mulher), que, deitada, aguarda por sua penetração simbólica e carnal. Tomando propagandas do império britânico, a autora revela a importância dos ícones de limpeza, apresentados por meio da alvura da pele ou pelo sabão que limpa até um preto que toma banho numa tina. Por sinal, o livro pode ser lido como um desfile de fetiches que tentamos naturalizar e que a autora faz questão de desmontar. O avental branco das serviçais faz parte de uma espécie de geografia simbólica do trabalho imperial, sendo a luva o seu lado oposto: a celebração da imagem imaculada das damas inglesas, cujas mãos não poderiam apresentar qualquer traço de uso ou deterioração.

Caso emblemático é o que a autora desenvolve no capítulo O Império do Lar. É o coração da obra, que, nesse caso, lida com um estranho casal da Inglaterra vitoriana. Ele, um advogado voyer, que adorava fotografar mulheres no trabalho. Ela, uma trabalhadora das ruas e das casas, que perambulava à noite, exausta, após a labuta de um dia inteiro. Seu encontro dá lugar ao teatro improvável mas previsível entre classes. Ambos deixaram diários em que narram um caso de amor intenso e clandestino, que durou 20 anos. O que se imagina é que Arthur Munby, com seu título imperial, dominasse totalmente a relação. No entanto, na prática experimentada por ambos, que incluía jogos sadomasoquistas e rituais fetichistas, o que impera é a negociação. Se ele satisfaz seus desejos fotografando sua criada nas mais diferentes situações, Hannah Cullwick impõe igualmente suas condições: jamais deixa de trabalhar e recusa-se a contrair matrimônio, considerando a instituição do casamento a maior das prisões. Como os diários revelam uma relação ambivalente, não há como aplicar a fórmula dicotômica do dominante/ dominado; escravo/ senhor.

O importante é que a autora escapa das dualidades fáceis e da tendência feminista de tratar mulheres como vítimas passivas. Se Hannah Cullwick é vítima de sua classe, é vítima ambígua, que manipula e agencia sua condição. O exemplo concreto permite à autora enfrentar uma série de temas que vão do lugar da domesticidade aos usos da raça e do gênero no discurso de poder masculino.

O retrato é multifacetado, como múltiplo é o imperialismo desenhado nesse livro. Nessa geografia simbólica, ninguém é simplesmente herói ou bandido. Como o casal acima, e a despeito das diferenças de classe, são todos cúmplices ambíguos. Mímicos, nos termos do filósofo H. Babha, que mostra como nativos e colonizadores manipulam seus papéis e se aproveitam deles. A bibliografia utilizada pela autora parte do marxismo, passando pelo feminismo, pela psicanálise e pelas leituras críticas do pós-colonialismo, sem que nada pareça ficar em pé. A autora não permite final feliz ao mostrar como o imperialismo representou uma miríade de encontros, feitos de coerção, violência, negação, cumplicidade e agência. De um lado, o trabalho invisível, obediente e até sujo do lar; de outro, o labor eficiente, eugênico, masculino, resistente. As luvas e aventais brancos por uma parte; as botas e bengalas por outro. Entre eles um jogo de performances rituais, de reconhecimento de classe, lugar e gênero, executados diariamente por personagens de carne e osso e sensivelmente descritos por Anne McClintock.

Perpassa a obra, no entanto, um certo tom por demais feminista e militante, que torna a leitura por vezes repetitiva e anacrônica. É como se a autora cobrasse um reconhecimento de gênero em todos os momentos e lugares. Mas nesse caso o menos é mais: numa época em que ocorrem várias formas de silenciamento, Anne obriga o leitor a tomar consciência de um circo de fetiches, cada qual com seus significados. Macacos, prostitutas, leões, empresários com seus ternos, nativos desnudos, travestis... - representam, assim, não exemplos casuais dispostos num cenário, mas lugares determinados nesse espetáculo chamado imperialismo. Ou como diz Fernando Pessoa: "As nações são todas mistérios. / Cada uma é todo o mundo a sós."

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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