Guerra contra a preguiça de vitória

Em A Estranha Derrota, o historiador Marc Bloch, morto pelas forças nazistas, fala da França durante a ocupação

Maria Luiza Tucci Carneiro, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

A edição brasileira de A Estanhai Derrota brinda o leitor com um conjunto de textos que, entrecruzados, expressam as múltiplas facetas do autor Marc Bloch (1886-1944): soldado inconformado com a ocupação da França pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial; membro da resistência que morreu como francês pela libertação do seu país; judeu expulso de suas funções acadêmicas pelos decretos antissemitas de Vichy e afamado historiador, fundador da escola e revista dos Annales em 1929, ao lado de Lucien Febvre.

Produzidos no calor dos acontecimentos, os textos nos remetem ao colaboracionismo e ao antissemitismo que culminaram com o assassinato de intelectuais franceses pelos nazistas: o próprio Marc Bloch, fuzilado aos 58 anos pela Gestapo; Maurice Halbwachs, sociólogo, morto aos 68 anos; Jean Prévost, escritor, fuzilado numa emboscada aos 43 anos. Robert Desnos e Max Jacob, deportados. Calcula-se que cerca de 2.242 toneladas de livros foram literalmente reduzidas a cinzas pelos nazistas na França ocupada. Diante da intolerância sem limites, a morte destes e de outros tantos pensadores simboliza milhares de obras interrompidas, sem falar das covas sem lápides, marcos de uma cultura sufocada pelo totalitarismo.

Antes de ler o livro, aconselho ao leitor observar a fotografia que ilustra a capa: uma bandeira com a suástica cobre parcialmente o frontão de um sobrado identificado como "Grands Salons?Réunions. Noces et Banq?". Junto à porta que dá acesso ao edifício um cartaz informa: "Interdits aux civils".

A propaganda no beiral de um toldo anuncia que estamos diante de uma cena registrada na Place Blanche, a mesma que em 1871 acolheu um batalhão de 120 mulheres da Guarda Nacional que lutaram nas barricadas resistindo bravamente durante as últimas semanas da Comuna de Paris. No entanto, os tempos eram outros em 1940. Na rua, o movimento dos pedestres bem-vestidos expressa uma normalidade aparente coincidindo com a análise de Marc Bloch que critica a população por "ter se mantido civil" esquecendo-se de que todos tinham "postos de soldados" (págs. 122 e 168). Desinformação, covardia, pacifismo e falta de amor à pátria por parte dos franceses são alguns dos atributos que permeiam o testemunho, o exame de consciência e o testamento assinados por Bloch.

Cidadão engajado e defensor da República, Bloch apresentou-se como voluntário para lutar contra o invasor. No posto de capitão de estado-maior respondia pelo armazenamento, transporte e distribuição de combustível até o momento que cruzou o Canal da Mancha para não se render ao exército alemão. Disfarçado de civil, retornou para a zona não ocupada após o armistício de 2 de julho de 1940, refugiando-se na sua casa de campo em Fougères. Em 1943 entrou para a clandestinidade ligado ao grupo de resistência de Lion. Assim, A Estranha Derrota é uma obra singular por expressar o "estranhamento" de Marc Bloch diante do fato consumado de que a França havia sido derrotada pelo frouxo marasmo e pela incapacidade dos "generais de exército" de não conseguiram incorporar o novo. A origem estava, ao seu ver, "no ritmo demasiado lento dos batimentos de nossos cérebros", sendo a derrota interpretada como "preguiça de vitória".

A Estranha Derrota é também um texto de resistência intelectual que sobreviveu ao cataclismo destruidor do nazismo: produzido entre julho e setembro de 1940, o manuscrito foi salvo durante uma busca policial acionada pelos agentes nazistas, forçando Bloch a entregá-lo ao amigo Philippe Arbos, decano da Faculdade de Letras de Clermont-Ferrand, que por sua vez, repassou-o ao dr. Canque, que o escondeu numa casinha no subúrbio de Clermont. Recuperado, o manuscrito foi enterrado na propriedade do dr. Canque, em Orcines, vindo à luz no final da guerra, quando foi entregue à família do autor. Publicado pela primeira vez pela Société des Édition Franc-Tireur em 1946, recebeu várias outras edições pela Albin Michel (1957), Armand Colin (1961), Gallimard (1990) e, finalmente, na versão brasileira da Zahar (2011). Enfim, é um livro-sobrevivente que perpetua as ideias do seu autor preocupado em registrar o tempo presente e de refletir sobre as condições necessárias para que a França não perdesse "o seu lugar entre as nações".

Bloch construiu o retrato de um conflito delineado pelas qualidades superiores do invasor alemão que impôs uma guerra de velocidade contra a guerra da lentidão, da ordem inventiva nazista contra a ordem estática do bureau de estado-maior, dos cálculos inteligentes da psicologia alemã contra a má informação dos franceses que, em pânico, ficaram desorientados. Diante da França agonizante que fazia "guerra de gente velha", o mestre da École des Annales, creditou aos jovens a missão de criar a "França de uma nova primavera". Ao fazer esse contraponto entre o passado, presente e futuro, o autor nos oferece uma aula sobre a história das fraquezas e das mudanças, elementos constitutivos das suas teorias que revolucionaram (e ainda revolucionam) as pesquisas históricas.

MARIA LUIZA TUCCI CARNEIRO É HISTORIADORA, PROFESSORA LIVRE-DOCENTE DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS TRABALHOS, DE O ANTI-SEMITISMO NA ERA VARGAS E CIDADÃO DO MUNDO: O BRASIL DIANTE DO HOLOCAUSTO (PERSPECTIVA)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.