Guel Arraes areja a criação da Globo

Se os críticos da APCA já não tivessem escolhido os melhores do ano, certamente levariam em consideração o especial Brava Gente, que a Globo exibiu depois do Natal. Assinado por Guel Arraes, um dos mais talentosos diretores da TV brasileira, Brava Gente vem provar que é possível conjugar entretenimento com um pouco de informação cultural.O projeto, composto pela adaptação de oitos produções literárias, ensina que a diversidade é benéfica não só para o mercado de autores, diretores e autores (chamados para tocar cada um dos episódios), mas para o público - acostumado à pasteurização vigente nas novelas - perceber que a linguagem da teledramaturgia tem sotaques diferentes dependendo de quem faz. Ao entregar os textos de Josué Guimarães (Enquanto a Noite Não Chega), Paulo Pontes (Um Edifício Chamado 200), Ariano Suassuna (O Santo e a Porca), Arthur Azevedo (Um Capricho), Paulo Lins (Cidade de Deus), Lourenço Cazarré (Meia Encarnada Dura de Sangue), Luis Fernando Veríssimo (O Condomínio) e Miguel de Cervantes (O Casamento Enganoso) a um seleto time de roteiristas e diretores, Guel conseguiu "quebrar" a homogeneidade compulsória das produções da TV.Ao liderar o processo de abrir as portas do veículo para novas experiências - o episódio Meia Encarnada Dura de Sangue, foi entregue à Casa de Cinema, uma produtora independente do Rio Grande do Sul, por exemplo -, Guel está arejando a área de criação da Globo, ocupada por profissionais competentes, mas que dominam o pedaço há mais de 20 anos.A diversidade marca também a composição dos elencos, que juntaram veteranos - como Francisco Cuoco, Tonico Pereira, Suzana Vieira, Nicete Bruno, etc. - e caras novas (Tadeu Mello, Sérgio Medeiros e os garotos Leandro Firmino, Bernardo Santos e Omar Barcellos, de Palace II, inspirada em Cidade de Deus). E as histórias escolhidas para montar o perfil da nossa Brava Gente também foram abrangentes. A malandragem, a paixão pelo futebol, a crítica social, a chaga deixada pela ditadura militar e a falsa ingenuidade dos caipiras - alguns traços que desenham o retrato cultural brasileiro - foram trabalhados com a maior competência. A aposta da Globo na inovação quase na virada do ano acena com a possibilidade de um 2001 mais promissor. A brava gente telespectadora bem que merece um upgrade na programação de cada dia.

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