BERTRAND LANGLOIS
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Gucci surpreende com desfile que aborda a morte como tema

Fascinado pelo luto, Alessandro Michele, estilista da marca, reinventa clássicos com irreverência e modernidade

Maria Rita Alonso, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Maio 2018 | 20h41

A última moda entre as marcas de luxo é dizer que oferecem experiências e não apenas produtos ou serviços. A intangibilidade dessas coisas que aparentemente não têm preço (mas que, logicamente, têm sim e são superaltos), pressupõe o despertar de sensações fenomenais e inesquecíveis. No caso das grifes de moda, há uma corrida para transformar desfiles em espetáculos grandiosos, que encanteM os clientes, gerem desejo e rendam buzz no Instagram. Na quarta-feira, 30, a Gucci se superou nesse quesito ao reunir 400 convidados para apresentar a coleção Resort em Alyscamps, uma antiga necrópole romana, nos arredores de Arles, no Sul da França. Quer algo mais inusitado do que estender a passarela à noite entre sarcófagos de pedra, numa atmosfera absolutamente sombria reforçada por piados de corujas e música fúnebre?

Pois foi nesse clima meio sinistro que os modelos surgiram em procissão, iluminados por um rastro de fogo e por chamas de velas em candelabros góticos. Um vestido de veludo trazia um esqueleto bordado na altura do tórax, meninas com casacos longos carregavam flores como se fossem viúvas visitando um cemitério, algumas peças estavam estampadas com as palavras em latim “memento mori”. Traduzindo livremente: lembre-se de que você vai morrer.

Para tocar no assunto-tabu que é a morte e o luto, o estilista Alessandro Michele usou uma perspectiva bem pop, misturando referências históricas com roupas afetivas com cara de brechó (o que faz parte de seu repertório criativo). “O luto é um processo de transformação que as pessoas precisam viver para conseguir passar para uma outra fase. Para mim, a essa coleção de Michele foi pensada a partir desse conceito", avalia Vivian Whiteman, editora de moda da revista Elle. 

Michele buscou inspiração em togas, mantos clericais, assim como no estilo dos rappers e dos cowboys. Subverteu clássicos como o casaqueto e o cardigã exibindo versões feitas em couro no lugar da lã. A jaqueta bomber gigante ganhou franjado country e tailleur rosa angelical contrastou com a lingerie preta que lembrava o visual da Morticia. 

A papete polêmica (que ensaia voltar às vitrines há algumas temporadas ) apareceu em versão luxuosa turbinada com cristais e usadas com meias coloridas. “Essa tendência ugly fashion é muito divertida”, diz Paula Merlo, diretora de redação da revista Glamour. “E a versão da papete deluxe da Gucci tem tudo para causar desejo-imediato”.

Considerado gênio fashion do momento depois de levantar as vendas da Gucci em mais de 40% no último ano, Michele causou frisson ao colocar modelos carregando réplicas de suas próprias cabeças entre macas de hospital, no desfile que fez em março, em Milão. Agora, que ele admitiu ver a morte com fascinação, bordou trechos da Divina Comédia de Dante em calças e casacos e fez anéis com letras gigantes, usadas uma em cada dedo, formando as palavras Deus e Amor. Detalhes como pequenos morcegos-vampiros e crucifixos adornam peças-chaves de décadas passadas, como um terninho de com calça de boca larga bem anos 1970, leggings com pequenos tigres estampados bem na vibe dos 1980, chokers que se usavam nos 1990.

Depois do desfile, houve ainda uma festa no jardim de Alyscamps, aos pés da igreja medieval de Saint Honoratus, com show surpresa de Elton Jonh, que fez uma performance emocionante, cantando cinco de suas músicas mais famosas. E é amigo e alma-gêmea do estilista. Michele assistiu ao show sentado num cantinho do palco.

Como um missionário da moda sem regras, o estilista tem entre suas inspirações declaradas as civilizações passadas, as artes e a ciência - mais até que o legado de moda da própria marca (que nasceu em Florença, em 1921). Nos últimos anos, especializou-se em criar coleções que exibem ao mesmo tempo um toque artístico e um grande apelo comercial.

Nascido e criado em Roma, dono de uma resiliência impressionante, o estilista aguentou firme por 12 anos no posto de sub da estilista Frida Giannini, antes de ser alçado ao cargo de diretor criativo da marca. Assistiu sua ex-chefe amargar quedas e mais quedas de vendas, batendo na tecla da mulher sexy e poderosa, que era o tipo esperado da Gucci. Por isso, quando teve a oportunidade de liderar a criação da Gucci mirou nos millennials, nos nativos digitais, que ouvem rap e hip hop e amam séries de terror e de ficção científica na Netflix. Deu certo. Foi um renascimento. 

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