Gucci aos 90 anos, legado de luxo

Vaidade e tradição são as palavras-chave da grife na Semana de Milão, que recebeu ainda Versace e D&G

Suzy Menkes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Com cores inspiradas no nécessaire feminino e um leve odor típico do mundo equino, o desfile da Gucci, na segunda-feira, foi uma bela mistura de masculino e feminino, de patrimônio cultural e modernidade - e a síntese de um guarda-roupa sensato.

Mas mesmo os efeitos dos tons das roupas para a geração do Facebook - camisas em nuances de pó de arroz e malhas de alpaca macia usadas com peças cor cappuccino e café - não foram suficientes para imprimir frisson a mais nos ternos elegantes e na luxuosa roupa esporte. Como a maior parte do que vimos na Semana de Moda de Milão versão masculina para o outono-inverno 2011-2012, encerrada na terça, o desfile de Gucci foi bonito - mas não sensacional.

Houve coisas para admirar nesta comemoração inicial dos 90 anos da Gucci - ainda que bem sutis: os dois Gs (do fundador Guccio Gucci) em grandes bolsas ousadas, que tinham às vezes as famosas alças de bambu da marca. Nos bastidores, a estilista Frida Giannini exibiu uma etiqueta histórica em roupas feitas de materiais finos e de excelente acabamento artesanal.

"Vaidade e tradição são as palavras-chave e quis traduzir o sentido de patrimônio cultural em algo contemporâneo", disse Frida, cujos ternos, como o fundo musical de Rod Stewart, lembravam a década de 70, com, por exemplo, paletós apertados e calças mais soltas.

O luxo é a palavra básica da casa Gucci, cujos estilistas parecem infundir excelência em cada produto. Não surpreende que Robert Polet, o diretor executivo do Grupo Gucci, na primeira fileira, afirmasse que o futuro parece brilhante, acrescentando que a marca tem apresentado um "crescimento positivo" nos principais países europeus.

Foi um momento especial para Donatella Versace: ela trouxe seu desfile de volta para a villa Versace, depois de realizá-lo por cinco anos em um teatro privado. "Estou muito emocionada", afirmou nos bastidores, explicando que o desfile se baseava em estrutura e textura, com a finalidade de dar às roupas geométricas efeito em 3D.

Mas as linhas eram tão rígidas, as formas tão gráficas e as superfícies tão estilizadas que nenhuma emoção transpirou de um casaco de couro com uma superfície enrugada ou escapou dos sapatos pontudos cheios de tiras com fivelas laterais. A coleção foi muito bem elaborada, com casacos de um preto profundo, confecções de cinza mais claro e depois uma injeção de azul elétrico.

Embora tudo tenha sido desenhado num template que só poderia ser Versace, não vimos no desfile masculino a vibração sensual que Donatella pôs no vestido justíssimo de Angelina Jolie na entrega do Globo de Ouro.

Entretenimento tem sido o objetivo, enquanto os estilistas tentam reforçar a roupa masculina - literalmente, no caso de Etro, no qual o couro predominou. Desde o primeiro traje - um casaco apertado de couro de vaca -, até as bolsas manchadas de couro de bezerro, o próprio Kean Etro foi influenciado pelo Tirol. Os pastos nas vertentes das montanhas influenciaram seu vestuário pseudocountry. Há coisas charmosas e originais - baseadas nos tecidos criativos de Etro - que impediram que o tema parecesse forçado. O próprio Etro, com uma barba enorme de camponês, emprestou mais significado a uma coleção que poderia ter sido inspirada na vaca louca.

O desfile de Dolce & Gabbana pareceu fora de tom - e não apenas porque o som da batida hip de Barbra Streisand de Duck Sauce ecoou incessantemente durante toda a exibição. Talvez Domenico Dolce e Stefano Gabbana quisessem dar um profundo sentido à la Andy Warhol às suas camisetas no estilo das que a gente via pelas ruas de NY (em 1984) com estampas de Coca-Cola, Mickey Mouse e aquelas coisas típicas da cultura pop.

As roupas, desde os casacos até os acolchoados e as peças de tricô, eram bonitas - talvez até demais para o contexto de uma banda de adolescentes urbanos. Esperemos que ela tenha sucesso suficiente para que seus membros invistam na versão D&G sofisticada do seu look.

Moncler. Thom Browne é um mestre da moda como teatro. Mas devia ter lembrado do provérbio de Hollywood: nunca atue com cachorros ou crianças. Cavalos e lindos filhotes de beagle foram páreo duro para as roupas do desfile da Moncler Gamme Bleu. Browne mostrou seus casacos acolchoados numa pista de esquis falsificada e usou até piscinas e pistas de ciclismo. Ao levantar os olhos do desfile dos cachorrinhos, via-se a elegância da coleção, que incorporou os enchimentos de penas de ganso icônicos da Moncler de maneiras interessantes: como os coletes fofos usados por baixo de um casaco e os macacões de esqui. O xadrez gráfico preto, branco e vermelho alternando com preto mostrou a concepção de elegância de Browne para a Moncler.

O acontecimento da semana foi o desfile de Umit Benan, inspirado nos banqueiros - não os vilões de Wall Street, mas uma nova safra que tem uma elegância desafinada, para a qual "seguro" tem a ver com investimento, e não com um estilo de roupa. São casacos de ombros estruturados, anos 80, com calças com um moderno corte saruel, abundância de botões dourados e tecidos xadrez de dimensões inesperadas. Essa capacidade de recriar o clássico, com inteligência, tornou cada peça da coleção fácil de ser usada por qualquer um, embora intrigante. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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