Guardiões do novo tempo

A nova animação da DreamWorks tem atrativos para crianças e adultos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 02h09

Antes de se tornar diretor de animação, Peter Ramsey - às vezes como Peter A. Ramsey - integrou o departamento de arte de diversas produções dramáticas (e ambiciosas). Sua especialidade - o storyboard, função que desempenhou em Clube da Luta e Quarto do Pânico, de David Fincher, A.I. - Inteligência Artificial e Minority Report - A Nova Lei, de Steven Spielberg. Ninguém que trabalhe com diretores desse calibre pode estar desqualificado para planificar e contar uma história. Ramsey mostra agora o que sabe como diretor de A Origem dos Guardiões.

É forçoso reconhecer que 2012 não está sendo um grande ano para a animação. Nenhuma Ratatouille, até porque o diretor Brad Bird, seduzido pela live action, trilha novos caminhos após o sucesso de sua investida em Missão Impossível - Protocolo Fantasma. Peter Ramsey segue o caminho inverso de Bird - um saltou dos desenhos para os filmes com personagens de carne e osso, o outro traz para a animação o que aprendeu criando storyboards para animações.

A Origem dos Guardiões não deixa de ser uma variação de Os Vingadores. No sucesso da Marvel, os super-heróis se unem para evitar a destruição do mundo. Na Origem, os guardiões - Papai Noel, o coelho da Páscoa, a fada do dente, Sandman e Jack Frost - têm por meta justamente garantir a felicidade da criançada (e a estabilidade de seu mundo). Para desestabilizá-los, o vilão Breu, o Pitch, arma situações exatamente para que as crianças deixem de acreditar nos guardiões. E se não houver Papai Noel nem coelho da Páscoa nem fada do dente? Como seria o mundo das crianças e, por extensão, o dos adultos? O mundo de Breu, o Bicho-papão, só pode ser sombrio e infeliz. Como heróis unidos jamais serão vencidos, você pode torcer pelos guardiões - e por Jack Frost, o garotinho invisível que controla o inverno. Esse último é o achado do filme. Acostumado a agir sozinho, integra-se meio relutante ao grupo - e sua chegada é saudada pelos elfos com retumbantes trombetas.

A Origem dos Guardiões é a nova animação da DreamWorks. Não é novidade para ninguém que o estúdio começou tropeçando na produção de desenhos, mas encontrou seu filão a partir de Shrek, que virou um megassucesso. Na sequência, veio outra série, Madagascar, e o 3, em 3-D, apresentou cenas eletrizantes de perseguição que levaram à revisão dos padrões até das produções em live action. Guardiões faz agora uma síntese. Como Shrek, o filme não deixa de questionar o universo dos contos de fadas. Como Madagascar, investe em cenas espetaculares de ação - e elas são tão impressionantes que o 3-D vai fazer com que a garotada tenha a impressão de estar em um parque de diversões, cavalgando numa montanha russa.

Para Ramsey, o desafio fundador do filme era o mesmo que deve ter movido o escritor William Joyce, autor da série de livros Guardians of Childhood. Joyce, vale acrescentar, ganhou o Oscar de curta de animação deste ano por The Fantastic Flying Book of Mr. Morris. Como inovar personagens que o público já está cansado de ver? Papai Noel virou um velho barbudo que encheu o corpo de tatuagens e carrega espadas. O coelhinho virou um gigante, ou quase isso - tem 1,85 m - e dispara bumerangues. A fada do dente balança as asas e destila charme. Sandyman, carinhosamente chamado de 'Sandy', é mudo e se expressa esculpindo a areia. Todas essas inovações talvez pareçam superficiais, mas Joyce e Ramsey, ao propor mais do mesmo, não deixam de observar questões importantes.

Em 1976, o psicólogo judeu norte-americano (nascido na Áustria) Bruno Bettelheim escreveu um livro fundamental, Psicanálise dos Contos de Fadas, em que analisou as narrativas míticas e como elas permitem às crianças encarar as perdas e transformações em suas vidas. O adulto talvez tenha uma percepção diferenciada de A Origem dos Guardiões, mas a cena em que Papai Noel confronta Jack Frost não é apenas bonita. Ele pergunta ao garoto o que pretende fazer de sua vida e o coloca perante a necessidade de fazer escolhas. A própria ideia de que Papai Noel e o coelhinho possam desaparecer aborda o rito de passagem - as transformações que todo indivíduo criança sofre (ou experimenta) para ingressar na idade adulta.

Joyce e Ramsey com certeza leram (e absorveram) os ensinamentos, não necessariamente didáticos, de Bettelheim. O filme tem belos personagens - alguns deles não fazem parte do imaginário das crianças brasileiras, mas isso não é empecilho -, a história é boa, a ação, intensa e o 3-D aumenta a voltagem. Produzido por Guillermo Del Toro, que domina a arte do fantástico, o filme fornece um material mais que adequado para o diretor Ramsey. Cores, formas, design - ele tem um campo amplo para desenvolver sua habilidade já testada na direção artística. Cenários como a fábrica de Papai Noel, com suas morsas chamadas de Yetis e os duendes simpáticos, as florestas de Jack Frost e o túneis do coelho enchem os olhos - e os ouvidos.

A trilha de Alexandre Desplat contribui para o clima, mas, no limite, o que o público - adultos e crianças - guarda de A Origem dos Guardiões são os travelings vertiginosos. Ramsey quer, e consegue, nos deixar de coração na mão, quando sua câmera, espremida em espaços exíguos, parece que vai se chocar no cenário, a quase todo momento. Mais uma vez, o 3-D revela-se a ferramenta adequada para incrementar a emoção.

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