Guardando o que se perdeu

Prosa de Sábado

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2011 | 00h00

Há 70 anos Borges criou a Biblioteca de Babel, um imaginário templo de todos os livros já escritos, um utópico universo bibliográfico composto de uma quantidade indefinida, e talvez infinita, de galerias e guardados, que muita gente acredita haver antecipado a internet. Em 2007 o alemão Alexander Pechmann inventou outra biblioteca, a dos livros perdidos, só com obras literárias destruídas, abortadas, abandonadas ou apenas planejadas, e também memórias falsas, manuscritos ilegíveis, textos póstumos ou nunca escritos ou apenas existentes no plano da ficção, como o misterioso romance francês com que Henry Wotton tenta perverter o jovem Dorian Gray. Em seu (também imaginário) pórtico de entrada, uma frase de Borges, pinçada da Biblioteca de Babel: "Basta que um livro seja possível para que exista". Ela resume à perfeição o espírito da empreitada de Pechmann.

"As bibliotecas imaginárias cumprem uma função tão importante quanto as bibliotecas reais, qual seja a de fornecer informações valiosas sobre livros que em vão buscaríamos em coleções de obras impressas e manuscritas, ordenadas sistematicamente", explica o bibliômano alemão, que se apresenta, modestamente, como mero custódio do silêncio a que um sem-número de criações literárias se viram condenadas ao longo do tempo, vítimas acidentais de alguma imprudência e calamidades naturais ou da insatisfação destrutiva do autor, mas sobretudo da fúria e da cobiça de tiranos, censores, editores, herdeiros, ladrões, advogados, sacerdotes, pedagogos, e até das travessuras de um cão (o de John Steinbeck estraçalhou metade do primeiro tratamento de Ratos e Homens e o de Isaac Newton derrubou uma vela acesa sobre uma pilha de preciosos documentos científicos).

A maioria sumiu para sempre, algumas foram descobertas em circunstâncias as mais extravagantes (e com enorme atraso, como o relato futurista Paris no Século 20, de Júlio Verne, escrito em 1863 e encontrado numa caixa da editora em 1994), outras recuperadas com a ajuda de anotações dadas como perdidas (como as que resultariam nas memórias de Paris É Uma Festa, por 28 anos guardadas numa mala que Hemingway esquecera no hotel Ritz de Paris) ou graças a um inesperado backup (como o que um colecionador nova-iorquino providenciou, cobrindo um buraco no Ulisses de Joyce, cujo texto original, de tão rasurado, fora parar no lixo). Estas obras, afinal retiradas da categoria de "perdidas", não são, portanto, os destaques da biblioteca organizada por Pechmann. Em seu acervo, já disponível em espanhol (La Biblioteca de los Libros Perdidos, Edhasa, 256 págs., ? 14,50), as sumidas, sim, valem ouro.

Pelos mais variados motivos - descontentamento com o trabalho, falta de reconhecimento e respeito dos editores, desejo de recomeçar do zero, medo do fracasso e da polícia - muitos escritores abortaram suas obras com as próprias mãos. Dostoievsky e Pushkin desapareceram com vários de seus manuscritos para não enfrentar a repressão czarista. Além de tentar, em vão, convencer Max Brod a queimar todos os seus escritos, Kafka, ele próprio, reduziu a cinzas diversos contos de juventude. Thomas Mann cuidou pessoalmente de destruir os trechos "de maior risco" de seu diário. Joyce ateou fogo aos originais de Stephen Hero, de cujas 2 mil páginas restaram umas 300, salvas pela mulher do escritor, Nora, e recicladas no Retrato do Artista Quando Jovem.

As perdas facilitadas ou infligidas por terceiros foram, naturalmente, as mais dolorosas. As memórias de Lorde Byron viraram fumaça por ordem dos advogados de seus herdeiros. Um editor londrino Cape perdeu o manuscrito da primeira ficção de Malcolm Lowry, que dele não fizera cópia, como não faria dos originais do melvilleano In Ballast to the White Sea, carbonizados no incêndio de uma cabana do escritor. Um vacilo da primeira mulher de Hemingway (esqueceu uma maleta com dezenas de esboços num trem de Paris para Lausanne, em 1923) obrigou o escritor a recomeçar do zero sua obra parisiense. Nunca se soube do paradeiro de uma caixa com as primeiras experiências literárias de Mary Shelley e um punhado de cartas de seu marido, o poeta Percy Shelley, deixada num hotel de Paris. Para ganhar uns trocados, Herman Melville vendeu em 1862 uma porção de rascunhos de romances para um fabricante de caixas de papelão, que idólatras do autor de Moby Dick ainda tentavam recuperar cinco décadas atrás, inutilmente, é claro. A tão aguardada Antologie Nègre, de Blaise Cendrars, já estava pronta para entrar na gráfica, quando os nazistas invadiram Paris e saquearam a casa do poeta, confirmando assim sua fama de pé-frio.

Embora as histórias que dão conta das aventuras e desventuras dos "verlorenen Bücher" catalogados por Pechmann oscilem entre o patético e o tragicômico, é além desses parâmetros que se situam as duas mais intrigantes figuras de sua bizarra Bibliothek: um boêmio vienense chamado Ernst Polak, colecionador de citações, e uma menina para quem Kafka escreveu cartas que supostamente lhe teriam sido enviadas por uma boneca que ela havia perdido numa praça de Berlim.

As cartas, escritas em 1923, nunca foram encontradas, nem a menina identificada. Polak tampouco deixou rastros. Como o nosso Jaime Ovalle, não precisou publicar uma linha sequer para ganhar um nicho na história da literatura. Bastou-lhe iluminar com seus lampejos orais as obras de seus amigos Kafka, Franz Werfel, Max Brod e Robert Musil.

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