Grupo XIX mira contradições atuais

Acostumada a obras de pesquisa histórica, cia. usa Nelson Rodrigues para discutir questões do Brasil no século 21

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2013 | 02h07

Nelson Rodrigues marcou forte presença nos palcos em 2012 - uma série de montagens veio celebrar sua obra no ano de seu centenário. Na peça que o grupo XIX de Teatro estreia amanhã a base é Vestido de Noiva, o revolucionário texto rodriguiano. Mas não faz sentido incluir Nada Aconteceu, Tudo Acontece, Tudo Está Acontecendo nesse rol de homenagens ao dramaturgo. "Essa não é uma releitura de Vestido de Noiva", esclarece Luiz Fernando Marques, que dirige o espetáculo ao lado de Janaína Leite. "Os aspectos morais levantados ali não nos interessavam. Só que precisávamos de uma fábula para nos ajudar a tratar do que queríamos discutir."

As tais questões a serem discutidas pelo grupo não destoam muito dos debates que eles suscitaram em suas criações prévias. Nos premiados Hysteria - um dos trabalhos mais comentados do teatro da última década - Hygiene e Arrufos o foco sempre recaiu sobre o Brasil e suas contradições. A diferença, pontua o encenador, é na distância temporal que eles costumavam estabelecer nessas obras. Se antes olhavam para o Brasil do fim do século 19 , agora é tempo de mirar os arcaísmos que perduram no século 21. "Existe essa euforia atual, essa ideia de um Brasil que está dando certo. Essa tentativa de acreditar nisso, ainda que todas as evidências provem o contrário", diz ele.

Por isso a estrutura de Vestido de Noiva foi transposta de 1943 para 2013. Em um armazém na Vila Maria Zélia - sede do grupo - o público é recebido como se chegasse, de fato, para um casamento. Distribuídos em mesas, assistem aos percalços de uma cerimônia. Com direito a discursos da mãe da noiva, interações com os "convidados" e vídeos com imagens do casal. "Queríamos trabalhar essa noção de acontecimento. Todos esses rituais, coisas que fazemos para na verdade não sair do lugar", pontua Marques.

As noções de realidade e alucinação, presentes no texto original, foram mantidas nesta adaptação, assinada pelo dramaturgo Alexandre Dal Farra. Aqui, ele convoca figuras bizarras - ícones da indústria cultural facilmente reconhecíveis pela plateia - para instaurar lampejos de sonho e provocar estranhamento.

Ao longo de toda a trama, os titubeios da noiva Alaíde estão entrelaçados a aparições de Madame Clessi. Assim como na obra de Nelson, a personagem da dona de bordel que morreu assassinada continua a ter fundamental importância. Mas serve, neste caso, para trazer à tona "fantasmas" de outra natureza. "É como esse passado brasileiro que sempre volta a assombrar. O passado para o qual não queremos olhar, mas que se impõe."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.