Grupo Tusp confirma opção pelo essencial

Cada um é um. No fundo, no fundo, somos todos iguais. São duas afirmações antitéticas de conseqüência ponderável para a arte. A primeira leva a distinguir, circunstanciar, reunir provas da inscrição do ser humano no relativo determinismo do tempo. A segunda dissolve contornos, tem em vista um fundo indistinto, físico ou espiritual, para onde converge a formalização. Interior, espetáculo apresentado agora pelo Grupo Tusp, se filia a essa segunda vertente. Na primeira cena dessa criação coletiva de um grupo que já existe há seis anos, os intérpretes-autores se apresentam com seus próprios nomes e alinhavam dados biográficos profissionais. São pessoas que trabalharam duro em serviços aborrecidos ou pesados.A maioria tem como lugar de origem social a classe trabalhadora, essa classe que, em nosso país, mata um leão por dia para garantir habitação, saúde e a educação de seus filhos. Somos informados desses indicadores sociais e, a seguir, do fato de que os atores não são diletantes. Estão há anos participando desse grupo de teatro apoiado pela Universidade de São Paulo. O que está em cena é o que selecionaram como universo temático e a linguagem inegavelmente requintada da expressão cênica se beneficia do conhecimento e da excelência técnica da instituição que suporta a estabilidade do trabalho.Não deixa de ser curioso, portanto, que trajetos biográficos cheios de tropeços materiais tenham se harmonizado no fundo comum da relação parental. Talvez haja aí matéria especulativa para a psicologia social. Com liberdade para criar, podendo falar de si, as pessoas põem de lado as dificuldades materiais e se concentam sobre as marcas fundas impressas na constituição da subjetividade. Todas as pequenas cenas encadeadas no roteiro (que recebeu um tratamento do diretor Abílio Tavares) estão focalizadas na memória afetiva relacionada ao grupo familiar. Os episódios de rejeição e aconchego, prêmio e punição, terrores e alegrias da infância se repetem, com pequenas variações, nas narrativas dos intérpretes. Quase como súmula da infância universal as dramatizações convergem, se assemelham, buscam pontos de contato. As reações diferem nos detalhes, mas as histórias das chineladas, das relações ambíguas com os velhos, das disputas pela atenção e pelo reconhecimento dos pais, são as mesmas. Seriam iguais, na perspectiva adotada pelo grupo, em qualquer outro enquadramento histórico e social.Por respeito à contribuição dos participantes, o espetáculo conserva narrativas muito semelhantes e paga o preço da repetição. Esse tributo à democracia é, aliás, um dos problemas que as criações coletivas têm dificuldade para resolver. Sendo, em primeiro lugar, expressão da vontade do grupo, as obras coletivas precisam, para se transubstanciar em comunicação, de um tratamento que considere a função transitiva do circuito. Nem tudo o que interessa como expressão é igualmente interessante do ponto de vista dialógico e uma apresentação pública é, antes de qualquer coisa, um diálogo com os espectadores. Além disso, as representações da vida emocional em estado puro, sem o adstringente do cálculo estético, resvalam, quase naturalmente, para a pieguice.Nesse sentido, o roteiro de Interior se beneficiaria de uma esponja para enxugar a autopiedade e do auxílio complementar de uma tesoura, sobretudo na organização visual das cenas. Há, por exemplo, uma ótima solução para a apresentação do grupo familiar, são os momentos em que os atores se enquadram em molduras e apresentam "retratos falados". O intérprete apresenta a si mesmo, define seu lugar na hierarquia da prole e indica alguns traços do comportamento parental. Essa mesma solução, aplicada a todas as famílias, ultrapassa no espetáculo a casa da dezena. A uma certa altura reconhecemos o formato e esperamos pacientemente que o panorama se complete.Feitos esses descontos, o Grupo Tusp faz por merecer créditos adicionais. A estabilidade, o empenho, a minúcia do trabalho corporal, do canto e da atuação em conjunto se refletem sobre alguns dos significados elaborados coletivamente. São extraordinariamente sedutoras as representações arquetípicas da infância e das gerações. As cenas coletivas dos jogos infantis, das punições, da contemplação do céu são ao mesmo tempo desenhos engenhosos e dramatizações sintéticas do lúdico, do terror infantil e da intuição do poético. E há uma cena - a das avós - que mereceria figurar em uma antologia na memória de espectadores.Em Horizonte, trabalho anterior desse grupo, a idéia era olhar para fora e para longe. Desta vez a paisagem é restrita e próxima. Mais simples, despida de pretensões literárias, essa encenação confirma perfil essencialista do Grupo Tusp.Interior. Dramaturgia e direção Abílio Tavares. Direção musical Pedro Paulo Bogossian. Duração: 100 minutos. De terça a quinta, às 21 horas. R$ 15,00. Tusp. Rua Maria Antônia, 294, tel. 3255-5538. Até dezembro.

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