Grupo turco integra programação de Mostra Internacional de Teatro de São Paulo

Companhia Studio Oyunculari traz ao Brasil o espetáculo 'Anti-Prometeu'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2014 | 21h31

A diretora turca Sahika Tekand foi certeira na escolha do título de seu espetáculo. Anti-Prometeu, montagem que integra a programação da MITsp, pode ser, de fato, considerado o avesso da saga do titã grego.

Na mitologia (e também na tragédia de Ésquilo), Prometeu é o herói que ousa desafiar os deuses. Rouba o fogo para se transformar em um protetor da humanidade. Opera por meio da astúcia e da coragem.

Por sua vez, a criação da cia. Studio Oyunculari revela homens amedrontados. Submissos. Ansiosos por abrir mão do livre-arbítrio e da capacidade de pensar.

Criado em 1990, o grupo turco possui uma extensa pesquisa em torno das tragédias clássicas (Édipo e Antígona já serviram de inspiração) e de sua subversão. Sempre na tentativa de confrontar essas histórias formadoras com questões prementes da atualidade.

Um retrato acurado do destino do homem contemporâneo está delineado em Anti-Prometeu. Com uma pilha de cadeiras nas costas, cinco intérpretes surgem no palco em penumbra. É imenso o peso que carregam. Capaz de vergar-lhes os corpos. Incutir-lhes o desejo de livrar-se da carga para, enfim, poder caminhar sem amarras.

Não se pode esquecer, porém, que a diretora está a lidar com os preceitos do trágico. Nesse gênero, o indivíduo invariavelmente entrará em conflito com forças além de seu controle. Na antiguidade, os deuses representavam esse papel. Hoje, é algo que denominamos “sistema”: um poder incorpóreo, sem rosto e sem nome, mas tão caprichoso quanto às divindades da Grécia.

Formalista, o espetáculo de Istambul demarca muito claramente três momentos de ação. No primeiro, os homens são tentados a sair da escuridão – por excelência, o território do desconhecido – para encontrar a luz e a segurança em um espaço que lembra um tabuleiro de xadrez.

Fazer parte da coletividade é um fardo. E é arriscado. Nunca se está a salvo. As revoluções burguesas dos séculos 18 e 19 inauguraram uma era em que a liberdade individual se opunha aos poderes absolutos. O iluminismo e o romantismo vieram dissipar de vez as sombras da Idade Média. Trazer a ideia do indivíduo como ser único, singular, guiado pela razão e pela vontade. Foi também nesse momento que a propriedade privada tornou-se a maior e mais preciosa das bênçãos.

A metáfora de Tekand não é de difícil apreensão. As falas aceleradas e a falha legendagem muitas vezes atrapalharam o público na fruição dos diálogos. Mas as imagens são inequívocas. Os quadrados iluminados no chão representam propriedades. Vislumbres de uma vida que não está sujeita a perigos e oscilações.

Por apropriar-se do fogo, Prometeu foi punido e oferecido em sacrifício. Condenado por Zeus a atravessar a eternidade amarrado a uma rocha, vítima de uma águia que diariamente vinha lhe devorar o fígado. Como contrapeso a suas benesses, o capitalismo tardio também vem imolar os seus “filhos”.

Na segunda parte da peça, os homens encontram refúgio no mundo das mercadorias. O lenitivo, porém, é frágil e não perdura. Seus bens também se tornam fardos. As leis desse “território” se revelam igualmente irracionais, impiedosas. Vem alquebrar a liberdade prometida e substituí-la por uma servidão ainda mais dolorosa.

A radicalização do individualismo virá resultar em sua anulação. Era amargo fazer parte de um corpo social, estar submetido aos ditames da coletividade. Não será mais doce, contudo, integrar um sistema que se organiza pela desigualdade. Os grilhões têm outros formatos. Mas em que se distinguem?

Ao final do espetáculo, os personagens virão trocar o corpo despido de amarras pelo conforto de uma cadeira. Atam-se ao móvel. Apertam bem as fivelas. Querem estar seguros, encontrar um lugar de anestesia, de platitude. Falam em apagar o passado. Seguir em frente, sem olhar para trás.

A abertura de mercados apregoada por Margaret Thatcher veio acompanhada pelo capcioso discurso da irreversibilidade da História. A globalização passou a ser tratada como destino inexorável. Processo que não pode ser detido, contra o qual nada se pode fazer.

No livro A Ordem do Discurso, o francês Michel Foucault analisava os mecanismos de vigilância e controle instituídos pela linguagem. O discurso tornou-se o novo dispositivo disciplinar. O astucioso Prometeu hoje não seria mais que um tolo. Alguém que não hesitaríamos tachar de retrógrado, inapto, perdedor.

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