Grupo Tapa revê humor ácido de Maquiavel

O grupo Tapa completa 25 anos de existência com muitos motivos para comemorar e alguns para lamentar. Faz aniversário sem um teatro que lhe sirva de sede ou qualquer patrocínio público ou privado que complemente a arrecadação de bilheteria, mas colhe os frutos do amadurecimento alcançado ao longo de sua premiada trajetória - nada menos do que 72 prêmios, de Molière a APCA, de Mambembe a Shell. Sinal evidente desse amadurecimento é a estréia amanhã, no Teatro Ruth Escobar, da comédia A Mandrágora, de Maquiavel. O diretor Eduardo Tolentino criou uma concepção bem diferente da anterior - da década de 80 - dessa mesma peça, encenada pelo grupo. "Éramos 20 anos mais novos. Aquela era portanto uma versão mais juvenil, mais ingênua e, sobretudo, mais racional. O País era diferente. Vivíamos o clima da primeira eleição direta, havia esperança no ar. A montagem criticava a corrupção. Hoje, ela está aí, presente, não há mais o que denunciar", diz Tolentino. Com uma crítica ácida e sem moralismos, tanto aos podres poderes quanto aos pequenos burgueses para os quais o dinheiro é o valor máximo e a erudição um verniz a ser exibido em salões, em A Mandrágora, o jovem florentino Calímaco, por conta de uma aposta, conhece e passa a desejar furiosamente uma mulher casada. Com a ajuda de um jovem embusteiro, de um frei sem escrúpulos e da mãe da recatada esposa, ele se passa por médico e convence o marido, desejoso de ter filhos, que sua mulher engravidará desde que tome uma poção milagrosa (a tal mandrágora, do título). Mas há um grave problema. Segundo o falso médico, depois de ingerida a poção, o primeiro homem que tiver relações com ela morrerá. Claro que a estratégia é fazer com que ele, Calímaco, seja esse homem. Afinal, o jovem imagina que, tendo uma boa chance, quebrará a resistência da (futura) amante. "Não faria sentido retomar a peça 20 anos depois para fazer igual. Na atual concepção, o racional deu lugar ao passional. Tudo ficou mais feroz, mais brutal, mais grosseiro mesmo. Calímaco não ama, deseja", diz Tolentino. A montagem tem elenco de primeira qualidade, desde o ator Guilherme Sant´Anna, no grupo desde sua fundação na PUC carioca há exatos 25 anos, até jovens atores talentosos, porém ainda desconhecidos do grande público, como Rodrigo Lombardi e Igor Zuvela - passando pela atriz convidada Maria Alice Vergueiro. Curiosamente, ela integrou o elenco da primeira montagem brasileira dessa peça, encenada no Arena, em 1962, com direção de Augusto Boal. Maria Alice fazia a chamada ´pontinha´, a mulher que encomenda ao frei missas para o falecido marido. No que diz respeito ao elenco, os fãs da companhia talvez estranhem a ausência de veteranos do grupo na nova montagem, como Zécarlos Machado, Brian Penido ou Clara Carvalho. Os três, e ainda Eloísa Cichowitz, estão em outra montagem da companhia, Contos de Sedução, em cartaz no Teatro Cacilda Becker. E tem mais. Depois de uma temporada percorrendo a periferia com apresentações nos CEUs, Centros Unificados de Ensino, a partir de sábado volta ao cartaz Casa de Orates no Teatro Martins Pena, aproveitando o mês de férias escolares.A Mandrágora - De Nicolau Maquiavel. Direção de Eduardo Tolentino de Araújo. Teatro Ruth Escobar, Rua dos Ingleses, 209, Bela Vista, 289-2358, metrô Brigadeiro. Sexta e sábado, 21 horas; domingo, 20 horas. R$ 20 (sexta), R$ 25 (sábado) e R$ 30 (domingo). Até 5/9Casa de Orates - De Arthur e Aluísio Azevedo. Direção de Brian Penido. Teatro Martins Pena, Largo do Rosário, 20, Penha, 293-6630. Sábado, 21 horas, domingo, 19 horas. R$ 10. Estréia sábado. Até 1/8Contos de Sedução - De J.E.Amacker. Direção de Eduardo Tolentino. Teatro Cacilda Becker, Rua Tito, 295, Lapa, 3864-4513. Sexta e sábado, 21 horas, domingo, às 19 horas. R$ 10. Até 1/8

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