Grupo Tapa estréia "O Tambor e o Anjo"

O Grupo Tapa se renova. O Tambor eo Anjo, peça que estréia neste sábado no Teatro Flávio Império,é uma montagem da chamada "ala jovem" da premiada companhiadirigida por Eduardo Tolentino de Araújo. A direção é assinadapor André Garolli e Paulo Marcos, este último intérprete do ´bonvivant´ Charles Lomax da peça Major Bárbara, do Grupo Tapa,atualmente em temporada no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em O Tambor e o Anjo, nove atores interpretam ospersonagens criados por Anamaria Nunes, também autora da comédiaGeração Trianon encenada com grande sucesso de públicorecentemente em São Paulo, no projeto Formação de Público, daSecretaria Municipal de Cultura. O processo de criação da montagem que estréia nestesábado começou há dois anos, ainda sob direção de Garolli."Fizemos uma leitura dessa peça num dos muitos ciclos deleitura internos do Tapa. O André adorou o texto, começou aestudar e a dirigir pequenas cenas. Quando ele foi viajar com oelenco de Caixa 2, eu assumi a direção", conta Marcos. Aprática é comum no Tapa, que mantém sempre um núcleo mais jovemtrabalhando, com elenco pinçado nos cursos ministrados pelogrupo. Alguns trabalhos "vingam" e chegam ao palco, como foi ocaso de Moço em Estado de Sítio, de Oduvaldo Viana Filho. Segundo o diretor, o texto justifica o longo tempo depreparação. "Uma das maiores dificuldades que a peça oferece éa mistura de memória, realidade e fantasia, a exemplo do queocorre em Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. A históriaé contada do ponto de vista da personagem Eliane (NicoleCordery) que está internada num sanatório, depois de tersurtado. Na terapia, ela revive o que aconteceu." A trama vai e volta no tempo, misturando fatoshistóricos e pessoais; delírio e memória. Eliane é filha de umdelegado de polícia repressor (Fernando Lacerda) e de uma donade casa ultra-religiosa (Fernanda Maia). Seu irmão Pedro (RafaelPrimo) é um militante de esquerda engajado, que acaba entrandopara a luta armada. A peça repassa os conflitos de geração eembates ideológicos que inflamaram a sociedade brasileira nasdécadas de 60 e 70. A princípio pode parecer uma peça datada, mas asapresentações feitas pelo grupo em escolas municipais no fim doano passado provaram o contrário. "Em essência, os jovenspassam por experiências semelhantes - o primeiro beijo, aprimeria transa, o contato com as drogas. Celi (PatriciaPichamone) amiga de Eliane é aquela garota que faz tudo primeiro a que experimenta as novidades e estimula os companheiros aseguirem o seu caminho. Embora a família, como está estruturadana peça, tenha se esfacelado, os conflitos não mudaram tanto." Beatles - Nas apresentações nos colégios, o público riude cenas como a fúria do pai querendo saber quem é esse tal deLennon (John Lennon, dos Beatles), pelo qual a filha diz estarapaixonada. "Os Beatles entram na peça como símbolo dastransformações que abalam a rígida estrutura familiar. E aautora explora desde esse pequeno conflito, do pai querendobater no tal de Lennon, até conflitos maiores, como os vividospelo irmão de Eliane, que joga uma bomba na escola e some decasa no dia do aniversário de 15 anos da irmã." Mas nem tudo é humor. Puxada por forças contrárias,Eliane se despedaça. Acaba surtando. "Eu não sabia escolher",diz a personagem a seu terapeuta. "A maior dificuldade da peçaé mesmo encontrar uma linguagem clara e precisa para mostrar osplanos da fantasia, da realidade e da memória", enfatizaMarcos. Em sua concepção, chegou a trabalhar com três planosverticais, como no famoso cenário criado por Santa Rosa para amontagem de estréia de Vestido de Noiva. "Mas decidimos nãoseparar esses planos de forma cartesiana. Eles aparecemmisturados no espaço, mas ainda assim a diferença aparece." Depois de ter itinerado por escolas municipais no fim doano passado, a peça entra, a partir de sábado, no circuitoprofissional. Serão três fins de semana no Flávio Império, emCangaíba, um dos seis teatros municipais ocupados por companhiaspaulistanas. O convite foi feito pela Cia. Estável de Teatro quevem revitalizando o Flávio Império com o projeto Amigos daMultidão. "Eles estão fazendo um trabalho bacana no teatro,trazendo de volta o público local." Em seguida, o grupo fará outra curta temporada no TeatroMuncipal Martins Pena, na Penha, cuja programação está sob aresponsabilidade da Companhia Pombas Urbanas. "Nossa idéia éfazer todo o circuito dos teatros municipais. Ainda estamosfazendo contato com as outras companhias, mas talvez isso sejapossível." Com a encenação de O Tambor e o Anjo, o Grupo Tapadá continuidade não só de formação de atores, mas também dediretores. Sandra Corveloni, Zecarlos Machado e Brian Penido jáassumiram direções de peças no Tapa. "O que nós chamamos de alajovem, independentemente da idade, é esse núcleo intermediárioentre dois pólos - os alunos de curso e o elenco das montagensprincipais", explica Marcos. O núcleo é formado por alunos doscursos filtrados por critérios como afinidade com o trabalhodesenvolvido pela companhia, dedicação ou interesse. "O formatodesse núcleo está mais para o de grupo de estudos. A gente estáconstantemente fazendo experimentos, sempre com a orientação deTolentino, cujo objetivo final não necessariamente é umamontagem." Até o ano passado, o Grupo Tapa, atualmente patrocinadopela BR Distribuidora, tinha sede fixa no Teatro AliançaFrancesa, atualmente em obras. Ainda que indesejável, a perdatemporária da sede pode acabar beneficiando o público, que terámais opções de teatros para ver seus premiados espetáculos.

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