Grupo Tapa ensaia peça de Bernard Shaw

Com dois bons espetáculos de seu repertório em temporada no Teatro da Aliança Francesa - Os Órfãos de Jânio e Contos de Sedução - o Grupo Tapa ensaia a montagem de Major Bárbara, de Bernard Shaw, há muito planejada pelo diretor Eduardo Tolentino. Com Clara Carvalho, Zécarlos Machado, Brian Penido, Guilherme Santana e Sandra Corveloni, entre outros atores do Tapa no elenco, a peça estréia no segundo semestre.No intervalo dos ensaios, Tolentino assume o papel de entrevistador para o programa As Primeiras Damas, na verdade uma série de 16 programas diários que serão apresentados pelo canal a cabo GNT. "Já entrevistei 13 atrizes e tenho, de cada uma delas, duas ou três horas de depoimentos maravilhosos. Difícil será fazer escolhas no momento de editar esse material." Marília Pêra, Fernanda Montenegro, Maria Della Costa e Eva Todor estão entre as atrizes entrevistadas pelo diretor para a série.Para o repertório do Tapa, Eduardo Tolentino vinha acalentando o sonho de mergulhar num universo ainda pouco explorado pelos atores em 23 anos de existência do grupo: o universo da classe dominante. Nos planos, A Importância de Ser Fiel, de Oscar Wilde, e Major Bárbara, de Bernard Shaw. "Queríamos começar por Wilde - a tradução é nossa, está pronta e é ótima - mas, por questões de produção, o Shaw sairá na frente." O Tapa foi um dos vencedores do Prêmio Estímulo Flávio Rangel, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, por meio do qual recebeu R$ 100 mil para a montagem de Major Bárbara.Por que um grupo que nos últimos tempos vem realizando várias montagens de autores brasileiros, todas recomendadas pela crítica, decide dar uma guinada em seu repertório? A Serpente, de Nélson Rodrigues, Navalha na Carne, de Plínio Marcos ou mesmo Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes, são peças construídas numa chave que o Tapa já sabe fazer. Não estou dizendo que são fáceis, são difíceis, exigem trabalho, mas a gente sabe fazer. Não é o caso de autores como Shaw e Wilde. Estamos estudando, ensaiando, mas ainda não temos a menor idéia de como fazer. E todo grupo precisa de desafios com esse de vez em quando."A Bárbara do título é major do Exército da Salvação e uma das filhas de um milionário fabricante de armas, casado com uma aristocrata falida. Ao contrário de sua irmã, uma menina fútil da sociedade, noiva de quem hoje chamaríamos de um "mauricinho", Bárbara preocupa-se com os famintos e, por sua vez, está noiva de um professor de grego. "Com essa peça, Shaw desvenda toda uma estrutura social diante dos olhos do público. Cada personagem funciona como uma engrenagem dessa estrutura que ele desmonta para mostrar, com muita acuidade e humor, o seu funcionamento."Para o diretor, o desafio proposto pela peça de Shaw assemelha-se ao enfrentado com a montagem de Ivanov, de Chekhov, há três anos, mas ressalta a diferença entre os autores russo e o inglês. "Chekhov mexe com emoções e estados de alma. Talvez por ser médico, era mais sensível à dor humana. O homem de Chekhov é dolorido e patético. Shaw era um jornalista, um intelectual politizado, suas análises são cruéis, frias, perpassadas pelo cinismo e por um humor cáustico e feroz."Uma das frases da peça ilustra bem esse cinismo. "Você pode praticar a imoralidade, desde que pregue a moralidade", diz a mãe de Bárbara. Qualquer semelhança com políticos brasileiros não é mera semelhança, uma vez que Shaw trata de estruturas de poder. "Acho muito importante a montagem dessa peça atualmente no Brasil. Ao desmontar a engrenagem social, Shaw mostra que nós todos fazemos parte dela, cada mecanismo tem sua função, cada um dá a sua contribuição, desde o mendigo até o pequeno funcionário, seja por indolência ou por malandragem. Ele bota o dedo no centro de algumas feridas."Entre elas, o pensamento assistencialista. "É muito interessante que ele tenha escolhido o Exército da Salvação e não a Igreja Católica para mostrar isso, porque passa pela idéia de luta armada, porém uma luta para a pacificação, para o amortecimento dos instintos, para a não transformação."Tolentino ressalta que o Brasil está crivado desse pensamento assistencialista, até mesmo na área cultural. "A gente não exige mais uma política cultural transformadora, mas fica esperando uma política assistencialista, que tape os buracos para que sobrevivamos a curto prazo."

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