Grupo Tapa encena peça de Millôr Fernandes

Só as companhias permanentes têm estrutura para manter um repertório em cartaz. No Brasil elas não são muitas. O Tapa, dirigido por Eduardo Tolentino, sediado no Teatro da Aliança Francesa e patrocinado pelo Grupo Pão de Açúcar, está entre as poucas companhias brasileiras que conseguem manter um bom repertório em temporada. Nesta quarta-feira à noite, estréia na sede do Tapa, Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes.Dirigido por Eduardo Tolentino, com elenco integrado por Clara Carvalho, Guilherme Santana, Norival Rizzo, Sandra Corveloni e Malú Pessin, o espetáculo integra a programação do Panorama do Teatro Brasileiro. Até agora, o panorama acumula 14 peças de autores nacionais que, no conjunto, propiciam não só uma ampla visão da dramaturgia do País, como também, por extensão, uma melhor compreensão do Brasil.Millôr escreveu Os Órfãos de Jânio em 1979, três anos após ter traduzido Os Filhos de Kennedy, de Robert Patrick, uma peça cujo tema era a ressaca pelo sonho acabado, o fim da era hippie, as drogas transformadas em negócio. Inspirou-se no modelo americano - solilóquios de personagens desencantados numa mesa de bar. Mas, como observou, na época, o crítico Sábato Magaldi, Millôr foi muito além da paródia, criou uma outra peça superior ao modelo.Com a argúcia que lhe é peculiar, Millôr retrata não só uma geração tragada pela violenta transformação comportamental que varreu o mundo nas décadas de 60 e 70, mas também a fragilidade intelectual e emocional dos jovens brasileiros que viveram o sonho de transformar politicamente o País. Tudo com seu humor peculiar, que surge de palavras e jogos de idéias característicos desse autor que domina como poucos a linguagem. Não fosse ele um dos melhores tradutores brasileiros - 105 peças - de autores como Shakespeare, Molière e Racine."Se tivesse que definir Millôr, diria que ele é o Bernard Shaw brasileiro. Não estou falando de imitação, mas de filiação a uma corrente", diz Tolentino. "Millôr escreve muito muito bem; há no seu texto o sabor da palavra, o sabor da construção da frase. Com a linguagem particular de Millôr, seu racionalismo forte, seu humor cáustico, ele desmonta os mecanismos de poder, clareia o percurso de cada personagem sem jamais tratá-los como vilões ou heróis. Para além do cunho político da peça, Millôr constrói seres humanos muitos fortes."A verdade é que a releitura da peça - encenada pela primeira vez em 1980 - surpreende. O texto parece ter rejuvenescido, o balanço de uma época ficou mais claro, as conseqüências daquelas transformações mais presentes. Talvez porque, há 20 anos, a política fosse tema rejeitado num palco que sofria a ressaca do teatro panfletário das décadas de 60 e 70. "O conteúdo político não é o mais importante", avisou Millôr na época. "Esta é, basicamente, uma peça sobre a angústia humana."Hoje, talvez o aviso não fosse tão necessário. Ficou mais fácil apreciar a forma como o autor entrelaça a tragédia pessoal dos personagens, com a tragédia de uma nação tomada pelo obscurantismo, que começa a ganhar terreno com a renúnica de Jânio, em 1961. Num texto quase premonitório, o autor aponta com lucidez as conseqüências dessa renúncia nos corações e mentes dos brasileiros.Os Órfãos de Jânio - De Millôr Fernandes. Direção Eduardo Tolentino de Araújo. Duração: 115 minutos. Quarta e quinta, às 21 horas; sexta, às 21h30; sábado, às 22h30; domingo, às 20h30. R$ 10,00 (quarta); R$ 15,00 (quinta); R$ 20,00 (sexta e domingo.); R$ 25,00 (sábado). Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, tel. 259-0086. Até 30/6.

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