Grupo resgata criações de compositor esquecido

Trios de Glauco Velásquez, que morreu em 1914 aos 30 anos, esperaram quase um século para voltar aos palcos

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h09

As primeiras grandes descobertas musicais de Darius Milhaud ao desembarcar no Rio de Janeiro em fevereiro de 1917 como secretário do embaixador francês Paul Claudel, foram os trios para piano e cordas de Glauco Velásquez, compositor brasileiro que morrera em 1914, com 30 anos. Enxergou nele uma alma gêmea do compositor belga Guillaume Lekeu (1870-1894): "Um fato extraordinário (...) ambos escreviam o mesmo tipo de música". Dois meses depois, fez uma conferência-concerto e tocou a parte de violino no trio nº 2, com Luciano Gallett ao piano e Alfredo Gomes ao cello; completou o inacabado trio nº 4 e fez a estreia mundial no Rio em 1918.

Estes trios esperaram 95 anos para voltar à circulação que merecem, graças ao Aulustrio, em belo projeto discográfico da integral no final do ano passado. Eles interpretaram o trio nº 4 na fria manhã de anteontem no auditório da Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Obra densa e angustiada, escrita quando Glauco já estava condenado pela tuberculose, exibe audácias harmônicas e um discurso musical sempre beirando ao desespero.

Talentosos e competentes, os irmãos Brucoli reproduziram bem o clima meio expressionista de Glauco. Já o mesmo não se pode dizer de sua leitura plana do trio op. 87 de Brahms. As notas estavam lá. Faltou profundidade. As frases soavam lineares. Logo em Brahms, que combina harmoniosamente o rigor clássico a uma expressão romântica. Melhor teria sido, até no espírito dos Brucoli, garimpeiros de repertórios esquecidos, acoplar o trio nº 2 de Glauco, ou o trio de Lekeu. Ajudaria a entender o espanto de Milhaud ao encontrar por aqui uma alma gêmea do compositor belga.

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