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Grupo promove integração na Favela da Maré

Companhia de Lia Rodrigues monta espetáculo que nasce da troca de experiências de crianças de diversas regiões do Rio

Helena Katz, ESPECIAL PARA O ESTADO

27 de abril de 2013 | 17h39

A presença da Lia Rodrigues Cia. de Danças na Favela da Maré, no Rio, iniciada em 2003, vem mostrando um caminho diferente para as experiências que se autonomeiam "sociais". Um de seus frutos foi a criação, em 2011, da Escola Livre de Dança da Maré, que retomou um projeto realizado lá mesmo pela professora e crítica Silvia Sotter, em 2005. Financiada pela Petrobrás, a escola começou no programa cultural e agora está migrando para o social, mas a sua continuidade ainda não está acertada. Aberta a todos os moradores de todas as idades, hoje reúne 300 praticantes em seus cursos livres. Outro fruto foi a criação do Núcleo 2, graças ao apoio da Fundação Hermès, dedicado à formação de intérpretes para a dança. São eles que estreiam hoje seu primeiro trabalho: Exercício M, de Movimento e de Maré, lá mesmo, onde fica a sede da Lia Rodrigues Cia de Danças.

Em entrevista ao Caderno 2, Lia explica que o projeto do Núcleo 2 tem como proposta juntar 80% de membros da comunidade com 20% vindos de outros lugares. "Queremos trabalhar o encontro entre jovens que vêm de formações e lugares diferentes, assim como o encontro deles com a companhia. Nesta primeira ação, cada um trouxe o que era seu e construímos algo juntos. E também trabalhamos com os materiais coreográficos da companhia. Escolhemos um trecho do Aquilo de Que Somos Feitos, obra de 2000, e ele foi multiplicado por 16. Os dois momentos são apresentados com o público acomodado ao redor do mesmo quadrado em que o Aquilo acontece. E Zeca Assunção compôs uma música nova para os duos que surgiram, o que também faz uma ligação musical com a trilha original."

Para formar o Núcleo 2, foi realizada uma audição. Apresentaram-se 50 interessados, 26 foram selecionados e, ao final do processo de um ano de quatro horas diárias de dedicação, restaram doze. São jovens entre 17 e 24 anos, que recebem uma bolsa de R$ 280, um lanche e o dinheiro para seu transporte. A eles se juntaram quatro convidados.

"É muito vital essa experiência. Eles são muito autônomos, trabalham com uma garra que hoje é cada vez mais rara. Não são corpos de bailarinos, mas agora estão muito mais treinados. Tem quem nunca tivesse feito dança antes, tem quem está conosco desde nosso primeiro projeto, o Dança para Todos."

Apoio. O Núcleo 2 é formado por Allef dos Reis Victor Estevão, Danielle Pereira Rodrigues, Diego Farias Alves da Cruz, Gustavo Glauber dos Santos Vieira, Ingrid Cristine C. Santos, Jeniffer Rodrigues da Silva, Lohana Pereira Severo, Luciana Barros Ferreira, Marilena Manuel Alberto, Raquel Alexandre David Silva, Sidney Rafael Galdino dos Santos, Thaina Farias de Barcelos. E as quatro convidadas são Clara Ramos de Castro, Dora Mendonça Murillo Selva, Gabriela Cordovez da Costa Franco, Marta Eugenia Frattini.

O desenvolvimento do Exercício M, de Movimento e de Maré foi possível porque recebeu o Fundo de Apoio à Dança - FADA -, criado no Rio de Janeiro durante a gestão de Emílio Kalil na Secretaria Municipal de Cultura. "Com a troca de governo, ainda não sabemos o que acontecerá com essa política pública de financiamento à dança recém-implantada."

Em meio a toda essa insegurança, o ânimo não diminui. "Quando você está em um ambiente onde é preciso tirar o pó que se acumula a cada novo dia, no qual o moço que precisa tirar o carro do lugar onde está estacionado não tira, onde existe tráfico, onde somos nós mesmo que colocamos e lavamos o linóleo a cada vez que vamos usá-lo, acho que se pratica dança de forma diferente da de outros ambientes." Talvez esse jeito de fazer tenha algo de importante a dizer para quem se interessa pela qualidade da dança, da democracia e da cidadania.

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