Grupo mineiro prepara-se para a Bienal de Lyon

Convidada a participar da Bienal de Lyon, em setembro, a Cia. de Dança Balé de Rua, criada em janeiro de 1993, vem enfrentando e superando todas as dificuldades para conseguir sair pela primeira vez do Brasil. O dinheiro para tirar os passaportes, por exemplo, foi emprestado por um amigo, Rogério, que será ressarcido com o cachê que o grupo receberá por uma apresentação em Diamantina, na semana que vem.A situação do grupo mineiro se tornou crítica quando a CTBC, que os apoiou em 2000 e 2001, interrompeu o acordo e, a partir daí, as negociações com o novo parceiro, a Telemig Celular, demoraram a se concretizar. Isso significou que os 15 funcionários com carteira assinada da compania estão sem receber o seu salário de R$ 250 desde dezembro."Só conseguimos aprovação de R$ 100 mil pela Lei de Incentivos e mais R$ 45 mil no Pão Nosso de Cada Dia, o projeto de manutenção de jovens talentos", conta Fernando Narduchi. Sua folha de pagamento anual é de R$ 125 mil e a companhia enfrenta uma ação de despejo por atraso no aluguel da sua sede, na Avenida Brasil, 2.342, no bairro Brasil, em Uberlândia, onde ensaia num piso de cimento esburacado. As sapatilhas e o figurino da nova produção foram pagos com cheques pré-datados, mas o ânimo e o humor não se deixam abater."A última coisa que queremos é nos fazer de vítimas e quem tiver essa impressão precisa vir aos ensaios para ver a garra de cada um, independentemente dos problemas particulares que cada um está enfrentando na vida particular."Fernando Narducci, o diretor, e Marco Antônio Garcia, o coreógrafo residente, são fucionários da Secretaria de Cultura local, mas estão cedidos para se dedicar a este projeto. Como contrapartida, oferecem oficinas gratuitas. Debaixo de uma das árvores do pátio da Oficina Cultural da cidade, os dois conversaram com o Estado sobre a sua mais recente criação, O Cubo, que havia pré-estreado na véspera da entrevista, e também sobre seus planos para a Bienal de Lyon. E, lá mesmo, anunciaram a criação da Associação de Amigos da Cia. de Dança Balé de Rua. Quem desejar fazer parte deve entrar em contato pelo e-mail balederua@triang.com.br A lista de amigos, aliás, já se iniciou com os profissionais que se engajaram: a artista plástica Lucimar Bello doou um guache e a Interlúdio doou dois relógios, que serão leiloados. Eugênio Pacceli está produzindo por conta própria as fotos para a exposição que seguirá para Lyon e Emanuel Couto, da Produto Final, realiza um documentário em vídeo, com parceria da TV Integração.Como o curador da Bienal, Guy Darmet, conheceu o trabalho de vocês? Fernando Narduchi - Enviamos uma fita com dois trabalhos nossos, E agora José? e Vira Lata e, em fevereiro, quando esteve em Belo Horizonte, fui encontrá-lo e recebi o convite. Ele disse ter ficado apaixonado pelo cenário. Propusemos como cortesia um workshop na periferia para a galera de lá. Será ao ar livre, para 60 adolescentes conveniados com o teatro onde nos apresentaremos, o Le Tobogan. Dançaremos do dia 10 ao dia 17, com duas matinês. Além disso, no dia 18, fomos convidados para gravar um especial para o canal FR3.E o convite para o XXII Festival Oriente-Occidente, como surgiu? Narduchi - Foi o próprio Guy quem nos indicou. No dia 3 de setembro dançamos no Teatro Sociale di Trento, e nos dias 4, 5 e 6, na cidade sede do festival, em Revoredo, realizaremos performances na rua, durante o dia, e à noite, apresentações no café Magic Mirror, onde acontecem oficinas culinárias e servirão comida brasileira. Como surgiu "O Cubo"? Narduchi - A primeira idéia era uma estrutura metálica enorme de 4 metros x 4 metros, fechada dos quatro lados, onde ficaria a orquestra de percussão. As paredes abririam, o piso subiria até o teto, seria um espaço cheio de truques e mecanismos. Mas o projeto foi orçado em R$ 35 mil e, como não tínhamos o dinheiro, fomos criando sem nada e já que a verba nunca chegou, decidimos mostrar o resultado assim mesmo. À princípio, Marquinhos não queria. Há cerca de 20 dias, tivemos a idéia de fazer um cubo pequenininho, para ser manipulado com as mãos.Marco Antônio Garcia - O figurino seria inspirado num desenho de um corpo sem pele e com todos os músculos desenhados, tirado de uma revista de medicina. Ia ser azul e os instrumentos, vermelhos. Corpos sem pele dançando. Mais uma vez, faltou o dinheiro. Íamos dançar com as nossas roupas de ensaio mas fomos a uma loja, encontramos um tecido, e a costureira fez em um dia nossos 13 macaquuinhos. Só que o tecido está se desmanchando, desfia muito. Vai terminar aparecendo o corpo dos bailarinos e até se aproximando, por outras razões, da idéia inicial, de um corpo sem pele dançando. Além da companhia, vocês realizam um trabalho com crianças na periferia. Garcia - Temos 12 grupos com alunos de 22 bairros, num total de 320 jovens. Cada bailarino do elenco assumiu um grupo e nós damos a assessoria. Temos até um de terceira idade que dança break. Fizemos uma mostra em dezembro que durou das 14 às 22h30, onde não aconteceu nenhuma espécie de conflito. A gente fala a mesma língua, por isso dá certo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.