Grupo Grial germina belo espetáculo

'Terra', solo de Maria Paula Costa Rêgo, propõe um inovador tipo de encontro com a cultura popular

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2013 | 02h14

O mais novo trabalho do Grupo Grial é um solo de Maria Paula Costa Rêgo. Terra, mostrado no final de agosto no Sesc Belenzinho, faz com a cultura popular uma operação de tal qualidade que lembra aquilo que Marina Tsvietáieva (1892-1941) fala do poeta: "descobre a lei das estrelas e a fórmula da flor". Caboclinhos, cavalos marinhos, maracatus e cirandas são agora peles de um corpo que não precisa de qualquer corrimão para se apoiar no que está fazendo. Conquistou a sabedoria de uma fusão que não comprime nem dissolve, mas dilata tudo.

Ao longo dos 16 anos de existência do Grupo Grial, que Maria Paula fundou com Ariano Suassuna em Recife, em 1997, a cultura popular já foi seu assunto e, depois sua parceira, materializada na presença dos mestres que passaram a fazer parte das suas criações. Mas com Terra sucede algo especial: nos faz pensar em um umbral para um tipo de encontro com a cultura popular diferente dos que vinham sendo empreendidos pelo Grial. Agora, ela tilinta em uma silhueta oblíqua, que promove outro jogo de luz e sombra no corpo brincante que o Grial pesquisa.

Trata-se de um corpo tecido pelos outros corpos, pelo que se toca e pelo que se troca entre eles. É possível encontrar às vezes um, às vezes outro, mas não com olhar distraído. Os reconhecimentos se tornam possíveis quando se firma a intenção neste modo de olhar.

Maria Paula sai da terra e depois, ao longo do espetáculo, nela enterra o que pode despregar do corpo. Tudo se agrega no diapasão da beleza e com uma coerência que nos leva ao atravessamento dos tempos do que está lá: a tradição deixa de ser o que aconteceu antes para passar a ser o que continua acontecendo.

Ao final, quando ela anda pela plateia e reencena um contato primeiro do índio com os badulaques do colonizador, explode esses limites apenas aparentes e nos faz pensar que ainda continuamos chegando atrasados ao encontro já marcado por outros tantos artistas com a cultura popular.

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