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Bob Sousa/Divulgação
Bob Sousa/Divulgação

Grupo encena saga familiar

A partir das memórias do diretor Nelson Baskerville, peça 'Luís Antônio - Gabriela' examina condição homossexual

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2011 | 00h00

O trabalho do ator envolve sempre uma dose de exposição. Mesmo à serviço de um personagem, quando ocupa a pele de um outro, é preciso que o intérprete lhe empreste a própria dor, as verdades e obsessões que traz dentro de si. Em Luís Antonio - Gabriela, montagem que abre temporada hoje no CCSP, o ator e diretor Nelson Baskerville leva ao extremo essa noção e aparece "exposto na própria na pele."

Para construir o enredo do espetáculo, o diretor viu-se às voltas com a tarefa de revisitar seu passado familiar.

Em cena, desvela a trágica história do irmão. Jovem que se descobre homossexual na Santos dos anos 1960, Luís Antônio sofre sucessivos maus-tratos até fugir de casa.

Passados 30 anos, a família recebe a notícia de que ele estaria morto na Espanha. Após muitas buscas, descobriu-se que era falsa a notícia da morte. Transformado em mulher, Luís Antônio vivia em Bilbao, como Gabriela. Tinha aids, estava muito doente, e precisava de ajuda. Começava aí uma jornada em busca desse episódio nebuloso, no qual lembranças, culpas e ressentimentos jaziam emaranhados.

Com o intuito de erguer uma dramaturgia a partir desses lastros de memória, Baskerville reuniu os atores da companhia Mungunzá e pôs-se a entrevistar todos os envolvidos na trajetória de Luís Antonio: A irmã, a madrasta, um amigo, além de si próprio.

De posse dos relatos, o diretor fez, então, a opção de não valer-se dos depoimentos apenas como subsídio para a escritura de um texto, mas como formato de encenação. Cada ator incorpora uma dessas figuras que vivenciaram o drama verídico. Modelo que recebeu de Baskerville a alcunha de "documentário cênico."

Nesse contexto, os fatos que ajudam a entender o caminho seguido por esse irmão perdido são apresentados, não raro, por vozes dissonantes. Olhares que nem sempre apresentam uma interpretação unívoca para um mesmo fato.

Depois de um processo que consumiu 14 meses, a peça vale-se de projeções de vídeos e músicas para dar conta da história. O procedimento lembra o que já se via no trabalho anterior do grupo, Por que a Criança Cozinha na Polenta. Mas, aqui, merece outro colorido, que evoca Pedro Almodóvar e seu cinema atormentado. Também são levadas ao palco 22 telas do artista plástico Thiago Hattner, que ajudam a compor essa investigação memorialística.

Mesmo ao saber que o irmão estava vivo e qual era o seu paradeiro, Nelson Baskerville conta que tomou a decisão de não ir ao seu encontro. Na última vez em que se viram, o diretor tinha pouco mais de sete anos. E quase quarenta anos haviam se passado. "No momento em que comecei a contar essa história para os amigos, senti a necessidade de transformá-la em um espetáculo", comenta ele. "Não para fazer um acerto de contas, mas porque parece haver um cenário oportuno para tratar desse assunto publicamente. Houve um progresso enorme. Mas ainda existe nesse tema algo que, por mais que a gente aceite, ainda não entende."

LUIS ANTONIO - GABRIELA - Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. De 4ª a dom., 21 h. Até 23/4.

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