Grupo encena peça num açougue

Desesperado, um homem esmurra a porta de um açougue, dizendo precisar de uma pequena e estranha encomenda: uma carne que provoque nojo - vegetariano convicto, ele pretende forçar o filho a seguir o mesmo caminho e, para isso, quer algo para lhe despertar enjôo. O pedido, porém, revolta o açougueiro, uma figura sinistra que inicia uma batalha verbal e carnal para mudar o hábito alimentar do homem, uma disputa que discute sexualidade e religiosidade. Estas são as primeiras cenas de Abaporu, criação coletiva do Grupo Tanga de Couro, que deve estrear em setembro não em um teatro tradicional, mas em um açougue."Queremos criticar a hipocrisia a partir do sangue", comenta o ator Lula Jorge, que assumiu a direção do espetáculo. "E, ao mesmo tempo, apontar os malefícios da passividade." O local inusitado não surpreende quem acompanha a trajetória do grupo - ao lado de Guilherme Marin, ele encenou, no ano passado, a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja, de Plínio Marcos, em um teatro especializado em shows de sexo explícito. A proposta era aproximar o público da realidade que inspirou o dramaturgo. Aliás, antes da estréia, os dois atores (que são engenheiros de formação) passaram seis meses nas ruas, convivendo com mendigos para adquirir os maneirismos corretos.Terminada aquela temporada, o grupo decidiu criar o texto seguinte. "A montagem de Dois Perdidos... foi uma experiência fundamental para que pudéssemos entender melhor o teatro e, com isso, poder criticá-lo", comenta Marin. Junto dos atores Sérgio Salmeron, Daniela Savieri e Débora Pitochi, começaram uma elaboração coletiva."Tínhamos apenas um ponto de partida, que era tratar de um assunto relativo a sangue", conta Jorge. "Daí, logo veio a idéia de se montar o texto em um açougue." Enquanto iniciava as primeiras linhas da peça, a dupla passou a pesquisar os estabelecimentos nos fins de semana. A busca rendeu até momentos curiosos, como uma abordagem policial. "Fui pego no momento em que subia em uma porta de ferro, para espionar o interior de um açougue", diverte-se Marin.A intensa procura logo rendeu frutos: durante um passeio pelo bairro da Bela Vista, o ator descobriu a Casa de Carnes Las Vegas, na Rua Santo Antônio. O espaço era ideal - uma área de atendimento ao público e, no fundo, um espaço para guardar material. No dia seguinte, Lula e Marin contataram o proprietário do açougue, Carlos Rocha.No início, veio a tradicional desconfiança, mas, depois de acompanhar alguns ensaios, Rocha acabou cedendo. Mais: permitiu até que se realizassem obras de adaptação, no fundo do estabelecimento. "Nos primeiros dias, ele acompanha tudo, ainda um pouco preocupado", conta Marin. "Mesmo não falando, ele temia que sumisse algum pedaço de carne." Com o tempo, já convencido da lisura do empreendimento daquele grupo que considerava maluco, Rocha passou até a deixar as chaves do açougue nos fins de semana.Os ensaios também despertaram a atenção da vizinhança, o que novamente rendeu momentos engraçados. Durante um dos diálogos mais ásperos, em que o açougueiro discute com o comprador, uma senhora, moradora no edifício em frente, chamou a polícia, acreditando que se tratava de uma briga. Para piorar a situação, Marin foi receber os policiais com um facão na mão, o que quase lhe rendeu uma prisão.Abaporu vai contar, em quatro atos, o embate ético e religioso entre dois pensamentos. A idéia é provocar o público, que será recebido, na frente do açougue, de forma original: o açougueiro, preparando um churrasquinho na rua, vai receber os espectadores e levá-los até dentro do estabelecimento. Como o espaço é reduzido, só serão permitidas 20 pessoas por sessão. Depois de acomodado o público, a porta será fechada. "Não queremos um público passivo", comenta Jorge. "Assim, quem quiser sair durante o espetáculo, terá todo o direito."

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