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Grupo de controle

Tenho plena convicção de que, em algum lugar, existe um outro planeta com uma população estatisticamente idêntica à nossa

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2016 | 03h00

Há sempre aquele momento na vida em que você, que foi aceita num protocolo de pesquisa experimental de um grande hospital paulistano, tem que se deparar com a desagradável descoberta de que caiu no grupo de controle. 

Aos que não estão familiarizados com o excitante mundo da pesquisa científica, um grupo de controle consiste naquele conjunto de infelizes que não receberão o tratamento que é foco do estudo, mas que não foram informados deste pormenor. Serve sobretudo como referência para a medição da eficácia do fator testado no grupo “de verdade”. Em suma, é o conjunto de pobres-diabos que toma a pílula de açúcar e recebe uns passes de vapores místicos de cânfora que teoricamente seriam eficazes em realinhar os chacras do duodeno, enquanto os sortudos tomam antibiótico. 

Sei que o grupo de controle é parte indissociável dos protocolos experimentais e que, sem ele, não teríamos como saber se o antibiótico tem o mesmo efeito da cânfora espiritual, mas, ainda assim, ninguém pensa com carinho em nós, os cavaleiros do desprendimento, mártires da ciência moderna, aos quais não resta nem o tênue alívio da possibilidade de ser curado. Apenas continuamos comparecendo às reuniões e preenchendo questionários com resignação e um certo senso de dever cívico similar ao de um mesário anarquista. 

Não é que eu esteja me queixando, pois sei que, em última instância, todos pertencemos a um grupo de controle cósmico que um Deus empirista estabeleceu sobre a Terra. Tenho plena convicção de que, em algum lugar, existe um outro planeta com uma população estatisticamente idêntica à nossa, pelo menos em sua forma original (digamos, um Adão e uma Eva, ou uma série de chimpanzés bem-dispostos), à qual está sendo aplicado um tratamento existencial de primeira linha. Por exemplo: o grupo de verdade é exatamente igual ao nosso, só que com mais cachorros, e ele está submetido a uma ordem perfeita e ao benevolente desígnio divino em questões de vida ou morte. O grupo de controle ficou com o livre-arbítrio. (Deu no que deu.)

Por outro lado, é bem possível que o tratamento em si não dê resultados e que nesse outro mundo também existam Donald Trump e pochetes, mas uma das particularidades de pertencer ao grupo de controle é necessariamente invejar a grama do vizinho e ficar se culpando por não ter caído com a turma certa. No caso da pesquisa do hospital, eu aposto que no grupo de verdade eles têm bolo, e que o coordenador está a essa altura ensinando passos de sapateado por absoluta falta do que fazer, já que a completa remissão dos sintomas foi alcançada na totalidade dos pacientes desde a segunda sessão. 

Nós, do grupo de controle, já planejamos um motim para invadir a sala oito e clamar por justiça. Ou pelo menos por uma fatia de bolo.

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