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Grupo criado por Brecht recusa o papel de relíquia e esbanja vitalidade no Sul

Uma das mais festejadas companhias alemãs participa do Festival Porto Alegre em Cena

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - ENVIADA ESPECIAL ,

10 de setembro de 2012 | 03h05

PORTO ALEGRE - Nosso tempo anseia por novidade, por estreias, por ineditismo. Mas o que o Berliner Ensemble, uma das mais festejadas companhias da Alemanha trouxe ao Festival Porto Alegre em Cena, foi o contrário disso: uma demonstração de tradição, constância, solidez. Fundado por Bertolt Brecht, em 1949, o grupo apresentou na capital gaúcha o maior clássico de sua trajetória: Mãe Coragem e Seus Filhos.

Não se trata de um texto qualquer. Marcou a primeira montagem do Berliner. Trazia a mulher de Brecht, Helene Weigel, como protagonista. Foi com ele também que, ao fim da década de 1950, a trupe da então Alemanha Oriental conseguiu furar a cortina de ferro da Guerra Fria e conquistar a consagração internacional em Paris. Tanto peso histórico, porém, não quer dizer que a capital gaúcha tenha presenciado a encenação de alguma relíquia. Ao contrário. "Continuamos a encenar Brecht depois de todos esses anos, mas só porque ele ainda é relevante para nós", disse o atual diretor do grupo, Clauss Peymann, em entrevista ao Estado. "Não somos um museu destinado a preservar algo. Até porque Brecht não mereceria isso."

Forjada em 2006, a atual versão do Berliner para Mãe Coragem não poderia ser mais viva. No conteúdo e na forma. Tudo o que se vê em cena é feito de forma clara, simples. Ao mesmo tempo em que pungente, lancinante. Fiel ao texto sem ser servil. Grandioso justamente por não ter a pretensão de parecer ser aquilo que não é. Além de nada reverente a nenhuma teoria teatral, nem as do próprio Brecht. "Suas teorias teatrais me parecem antiquadas, desinteressantes", comenta Peymann. "Não existe uma teoria - nem Stanislavski, nem Brecht, nem Artaud - que supere as mudanças dos tempos. Teatro não pode ser transformado em ciência."

Escrita pelo dramaturgo alemão, em 1939, a peça não carece de adaptações. Ou releituras que lhe deem novos ares. Primeiramente, porque o elenco encabeçado pela atriz Carmen-Maja Antoni garante à trama a genialidade que lhe é inerente. Além disso, a história de uma mãe que perde os três filhos, os bens e o único amor durante a guerra continua a soar tristemente atual. "É uma peça antiguerra clássica. Infelizmente, hoje é tão atual como na época em que Brecht a escreveu. Ele a criou sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e hoje há pontos flamejantes de guerras locais dispersos em toda parte."

Peymann assumiu a direção do Berliner em 1999. Encontrou, como ele mesmo conta, um teatro arruinado. A viver da reputação de outrora. Funcionando menos como sala de espetáculo do que como instituição destinada a manter a memória de um passado de glória. Hoje, com a situação revertida, a companhia faz cerca de 600 apresentações por ano, em Berlim e no exterior.

Além da passagem por Porto Alegre, a agenda do grupo alemão para 2012 também prevê outras paradas no Brasil. Em novembro, estarão em São Paulo para apresentar A Ópera dos Três Vinténs, outro dos clássicos de Brecht, e Lulu, de Frank Wedekind. Dessa vez, dirigidos pelo norte-americano Robert Wilson.

Berliner Ensemble no Brasil

Mãe Coragem e Seus Filhos

Dirigida por Clauss Peymann e apresentada em Porto Alegre, no festival internacional que será realizado até dia 24.

Sonetos de Shakespeare

A montagem, baseada nos poemas do dramaturgo inglês, deverá ser vista no Brasil em 2013.

Lulu

O texto de Frank Wedekind ganhou direção de Wilson e trilha original de Lou Reed. Também está prometido para novembro.

A Ópera dos Três Vinténs

Outro clássico de Bertolt Brecht, a montagem tem direção de Bob Wilson. Chega ao Sesc de São Paulo em novembro.

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL

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