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Grupo Corpo no limite da criação

Em 'Triz', Rodrigo Pederneiras tematiza os problemas que enfrentou para conceber o novo título da companhia

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2013 | 19h24

Triz, o espetáculo do grupo Corpo que encerra a temporada de dança do Teatro Alfa nesta quarta, 20,, quase não ficou pronto a tempo. As datas de apresentação tiveram que ser transferidas de agosto para o final de novembro. A estreia nacional, que aconteceria em São Paulo, foi transferida para Belo Horizonte. “Eu achei que não iria conseguir terminar”, confessa o coreógrafo Rodrigo Pederneiras. “Que não teria nada para mostrar.”

Submetido a uma cirurgia para reconstituir um tendão do ombro, Pederneiras teve que adiar o início dos ensaios. Quando tudo parecia prestes a retomar seu ritmo habitual, foi a vez de romper o menisco do joelho esquerdo e voltar para a sala de cirurgia. “Todos esses problemas acabaram se tornando tão fortes que viraram o tema da obra”, diz ele. “O título Triz veio depois, mas desde o começo estávamos lidando com essa ideia de limitações, com um sentimento de desassossego.”

O mote transparece na concepção da coreografia, criando situações-limite para os bailarinos e convidando-os a superá-las. As cenas se constroem e dissolvem sem quebras, quase em moto-contínuo. Os figurinos de Freuza Zechmeister guiam-se por inspiração semelhante, com manchas em branco e preto que confundem o olhar do espectador. Quando dois dançarinos se unem, não sabemos onde termina o corpo de um, onde começa o do outro.

Tamanha inquietação do criador organizou até mesmo o cenário de Paulo Pederneiras: cortinas de cabos de aço cercam o palco, pressupondo barreiras físicas a quem dança. “A obra sempre chama os bailarinos a encontrar o limite. Mas também a fugir dele”, comenta Pederneiras.

Segundo trabalho do grupo a ter trilha sonora assinada por Lenine, Triz foi concebido de uma maneira diferente da habitual. Imobilizado durante boa parte do processo de criação, Pederneiras não podia mostrar com o corpo o que queria dos dançarinos. “Era preciso verbalizar. E verbalizar um movimento é uma tarefa quase impossível”, considera. Ao constrangimento físico, somou-se o temporal: apenas três meses de ensaio no lugar do intervalo de quase um ano ao qual estavam acostumados. “Tive que modificar minha maneira de trabalhar. Contar mais com a participação de cada bailarino. Daí, a linguagem resultou outra.”

Até a maneira de organizar os corpos no espaço foi modificada. Formação nunca antes usadas nas obras do Corpo, os trios são onipresentes desta vez. “Tudo o que já tinha visto de trios me parecia previsível, eles acabavam sendo meio iguais. Por isso sempre evitei”, pontua Pederneiras. Para fugir dos clichês desse formato, arriscou-se a criar trios inacabados, que terminam sem uma conclusão.

Em linhas gerais, Triz é uma peça árida, muito pouco formal. A servir de contrapeso, a obra traz alguns duos. Encontros majoritariamente femininos, nos quais o coreógrafo valorizou traços como suavidade, harmonia e beleza.

‘Essa segunda parceria foi mais fácil’, diz Lenine

Essa é a sua segunda parceria com o grupo Corpo. Vocês já haviam trabalhado juntos em Breu. O que foi diferente agora?

A primeira vez foi muito difícil. Até por toda a liberdade que vem a reboque de um convite como esse. A janela é infinita. Nessa segunda vez foi um pouco mais fácil. Porque já havia percebido o que, na minha obra, pode servir de estímulo sonoro para a criação deles. Então, já estava municiado de certa intimidade.

Essa experiência traz alguma contribuição para sua maneira de compor?

Não acredito em uma mecânica de compor. Por isso, não existe uma maneira de fazer. Mas a experiência me mudou, sim. A primeira coisa que eu fazia, quando ia gravar um disco, era ir ao meu baú de canções. Tenho um arquivo onde vou guardando coisas e voltava a isso. Desde Breu, nunca mais fiz isso. Com o Corpo, aprendi a começar ao sabor do inesperado.

Existe um tema que você repete ao longo da trilha. Como se dá isso?

Já fazia isso no Breu. Mas em Triz está ainda mais evidente. Existe um leitmotiv que vou desdobrando, espelhando, levando as últimas consequências dentro desse universo de instrumentos com o quais estou trabalhando.

Toda a trilha está calcada em instrumentos de corda. Por quê?

Vou desde o berimbau até o piano. E essa escolha tem a ver com o banco sonoro de que disponho. Toco violão e sou um apaixonado pela linha evolutiva do alaúde. Então, eu já tinha balalaica, a rabeca, o cavaquinho. Foi um certo limite que eu me impus. Acho que o espetáculo todo é feito em cima de alguns limites. O meu foi esse. E se tornou um estímulo. Criações como essa também me dão a oportunidade de fazer música experimental, algo para o qual não existe mercado.

GRUPO CORPO

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000. 3ª, 4ª e 5ª, 21h; 6ª, 21h30; sáb., 20h; dom., 18h. R$ 40/ R$ 120. Até 29/11.

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