Grupo Corpo em longa temporada

O Grupo Corpo estréia nessa quarta no Teatro Alfa, em São Paulo, uma das mais longas temporadas já feitas pela companhia na cidade. Até o dia 20, apresenta duas coreografias diferentes: a estréia do espetáculo O Corpo, com trilha sonora composta especialmente por Arnaldo Antunes, e 21, trabalho de 1992.Há 25 anos na estrada, o Grupo Corpo elegeu o músico e poeta Arnaldo Antunes para fazer a trilha de O Corpo, saindo assim, dos temas folclóricos. "Fugimos dos temas regionais, da música popular que utilizávamos há quase dez anos para dar a este trabalho um tratamento musical diferenciado, mais urbano", explica o coreógrafo Rodrigo Pederneiras.O ex-titã aceitou o desafio do Grupo Corpo de compor, pela primeira vez, uma trilha para dança. "Senti um certo temor pela responsabilidade, havia uma curiosidade aguçada e muita animação e essa experiência inédita foi um incentivo para lidar com outras linguagens, para criar uma canção diferente e ao mesmo tempo pensar como aquilo geraria uma intenção, um gesto, um movimento", conta Antunes.O procedimento usual do Grupo Corpo é criar uma nova coreografia a partir de uma música. "O Corpo foi uma idéia do próprio Antunes que, a partir do nome da companhia, desenvolveu a música", afirma Rodrigo. Para o compositor, o corpo é a matéria-prima para a dança e essa coreografia faz uso da metalinguagem: o Grupo Corpo que fala do corpo."Não recebi uma pauta ou limitações, tive liberdade total para fazer a trilha dessa peça de 42 minutos ininterruptos", diz Antunes. "Tomei o nome do grupo como tema e utilizei texto cantado, música, respiração, ruídos orgânicos como grunhidos, gritos e sempre entendendo o corpo como um mecanismo em funcionamento." Esses sons misturam-se às guitarras de Edgard Scandurra, aos violões de Paulo Tatit e Alê Siqueira, aos teclados de Zaba Moreau e à percussão de Guilherme Kastrup.Como se vê, esse não foi um processo isolado de criação. Os integrantes do Corpo fizeram algumas visitas a Antunes, trocaram idéias e informações e só depois começaram a coreografar. "É interessante ver o trabalho montado, porque passamos a ver a música, observar detalhes da melodia no corpo dos bailarinos, detalhes que só ouvindo a canção passariam despercebidos", constata Antunes. "A música não pode dizer tudo, ela ficou pronta com a coreografia", reforça o coreógrafo.E a escolha de Arnaldo Antunes não foi por acaso. Rodrigo procurava sonoridades que possibilitassem uma nova forma de movimentação, uma mudança de vocabulário. Foi o que ocorreu. "O Corpo é um trabalho que deixa a sensualidade de lado e apresenta uma dinâmica violenta, com movimentos fortes", conta Rodrigo. "Há um destaque para a ironia e o humor e procuramos fugir da sensualidade feminina presente nos trabalhos anteriores", explica. "Uma outra característica peculiar deste espetáculo está em evitar a movimentação obsessiva; as frases coreográficas se repetem, no entanto, em contextos diferentes."Para dar o tom a O Corpo, o cenário, assinado por Fernando Velloso e Paulo Pederneiras, é composto por várias matizes de vermelho, como o sangue. Sob a responsabilidade de Paulo, um aparato sofisticado de iluminação completa o cenário e dá o clima à peça. O figurino é todo preto e assume o aspecto casual das gangues urbanas.Já 21 é o encontro dos irmãos Pederneiras com Marco Antônio Guimarães, líder do grupo Uakti. Juntos, apresentam uma coreografia que pode ser entendida como um marco para os dois grupos. A trilha sonora foi criada especialmente para o Corpo e resulta em uma peça que parte de figuras geométricas para criar compassos, o que abre espaço para a improvisação.A agenda da companhia está lotada. Os bailarinos vão fazer apresentações no Rio, no Teatro Municipal; em Brasília, no Teatro Nacional; e em Belo Horizonte, no Palácio das Artes. Depois, seguem para a Alemanha levando as coreografias Parabelo e Benguelê. Retomam as atividades em novembro passando por Porto Alegre, no Teatro São Pedro, e Curitiba, no Teatro Guaíra. Em dezembro, o Grupo retorna à Europa para dançar no Théâtre des Champs Elysées, em Paris. Essas apresentações serão possíveis porque o Corpo possui patrocínio da Petrobrás e da Brasil Telecom, que garantem a sobrevivência da companhia.Grupo Corpo. Duração: 95 minutos. De quarta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 20 a R$ 50. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel.: 5693-4000. Até 20/8

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